Gasolina com 32% de etanol começa a ser distribuída; entenda o que muda


A nova gasolina com 32% de etanol, agora chamada de gasolina E32, já pode ser distribuida aos postos a partir deste sábado (1°). O aumento de 2% do derivado da cana-de-açúcar na composição foi aprovado pelo Conselho Nacional de Pesquisa Energética (CNPE) em julho. Embora tenha encarado resistência de fabricantes e importadoras de automóveis, além de uma ação do Ministério Público Federal (MPF) que pedia sua suspensão, a circulação a gasolina E32 está autorizada.
Como tem sido comum durante a distribuição de novas composições da gasolina, são necessárias algumas semanas até o combustível com 32% de etanol chegar às bombas — o que também pode variar de acordo com regiões do Brasil. Isso porque restam estoques da gasolina E30 distribuídos ao longo de julho, que serão consumidos enquanto a nova mistura não chega.
A nova fórmula surge em função de uma tentativa do governo de diminuir a dependência de petróleo importado, em meio a um cenário de aumento de preços ocasionado por conflitos internacionais. Para o motorista, contudo, a nova fórmula pode acarretar em mudanças, mesmo que sutis.
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No último dia 22, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou um pedido liminar para suspender a decisão do governo que aumenta o teor de etanol na gasolina. Além da suspensão da mistura, ainda sugeriu o pagamento de uma indenização de R$ 500 milhões por danos coletivos. A Lei do Combustível do Futuro aprovada em 2024 permitirá aumentar o teor de etanol a 35% nos próximos anos.
O que muda para o motorista?
Para explicar as consequências da mudança, Autoesporte conversou com Gabriel Estevam Domingos, engenheiro e diretor de pesquisa, desenvolvimento e inovação da Ambipar, empresa que atua no setor de gestão ambiental e desenvolvimento de um etanol sustentável que não é feito de cana-de-açúcar, mas sim de desperdício da indústria alimentícia.
Antes de fazer qualquer mudança, Estevam destaca a importância da conclusão de testes de cada mistura, principalmente em veículos antigos:
“Esse é um universo técnico que precisa muito se testar, principalmente com relação ao desgaste dos componentes do motor, como a correia e alguns materiais em que há mudança de pH, para saber como isso vai se comportar. Em um ponto de vista de durabilidade do motor, principalmente os motores antigos”, diz o especialista.
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Donos de carros flex podem notar aumento do consumo, tendo em vista que o poder calorífico do etanol, agora mais presente na gasolina, é menor. É o que dizem Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), e Clayton Barcelos Zabeu, professor e pesquisador na área de Propulsão Automotiva no Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).
Poder calorífico representa a quantidade de energia que um combustível fornece quando queimado completamente: o derivado da cana-de-açúcar equivale a 70% do valor da gasolina a cada litro consumido. Por isso, o consumo dos carros flex vai inevitavelmente aumentar com a adição de etanol à mistura.
“Os motores modernos têm recursos eletrônicos que operam com uma taxa de compressão intermediária para funcionar com etanol e gasolina ao mesmo tempo. Ao detectar um combustível de maior octanagem, o sistema [de gerenciamento eletrônico] poderá se ajustar automaticamente e fazer com que o motor funcione a uma taxa de compressão mais favorável”, explica Gonçalves.
Estevam afirma que, apesar do maior gasto de combustível, economicamente, a mudança pode beneficiar o motorista: “Embora a autonomia seja menor, o cálculo inverso da conta base compensaria este trabalho. Claro que o motorista precisaria abastecer mais vezes, mas o que poderia sanar isso seria o ponto de vista de custo.”, argumentou.
Por outro lado, para carros que funcionam apenas com gasolina, especialmente os mais antigos, a mudança pode ser mais prejudicial. Nesse contexto, os veículos podem apresentar corrosão precoce de borrachas e elastômeros. Apesar dos riscos, o especialista comenta que, com os devidos testes, carros antigos também podem se adaptar:
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“Atualmente, podem ser feitas simulações para diversos cenários, principalmente para os carros antigos. Já os novos têm sistemas eletrônicos que calculam a injeção de acordo com o giro do motor. Creio que esses dados possam ser compartilhados com todos os veículos”, diz.
Por muitos anos, o Brasil teve 22% de teor de etanol na gasolina comum. Essa mistura subiu para 27,5% em 2015 e permaneceu assim por dez anos. Em agosto de 2025, chegou aos 30%. Agora, menos de um ano depois, veio a decisão de elevar para 32%.
Por que aumentar o percentual de etanol?
A decisão do governo se baseia nos testes anteriores já realizados, quando subiu a mistura para 30%. Isso porque os ensaios trabalharam com margem de dois pontos porcentuais, chegando aos 32%. Acontecimentos globais como a guerra entre Estados Unidos e Irã ganhando força, sem previsão de acabar, e o aumento do preço internacional do barril do petróleo, podendo ter impactos significativos no valor da gasolina, são fatores determinantes para a decisão.
Vale lembrar que a expectativa do governo é aumentar ainda mais a quantidade de etanol na mistura, para 35%. Este aumento, contará com um investimento de R$ 30 milhões, para testes laboratoriais, e está previsto nas diretrizes da Lei do Combustível do Futuro (14.993/24), aprovada em 2024.
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