Combustível adulterado: saiba quais são os impactos e como identificar


A adulteração de produtos ganha proporções assustadoras. Bebidas, cigarros, itens de limpeza e até sabão líquido são vítimas de quadrilhas cada vez mais ousadas. Mas se tem alguma coisa nesse cenário que irrita mais o coitado do consumidor é o combustível adulterado. Por quê? Porque isso afeta um dos entes mais queridos dele: o carro.
E os efeitos do combustível adulterado são diversos no veículo – e podem ser devastadores. Tanto a curto, como a médio e longo prazos, as alterações que a bandidagem faz na gasolina, no etanol, no diesel e até no Arla 32 (que nem combustível é) afetam não só o motor, como diferentes partes do conjunto mecânico.
“O que que o fraudador busca? Aquele produto que dá o melhor rendimento para ele. E o produto que dá o melhor rendimento é sempre aquele mais caro”, explica o diretor executivo do Instituto Combustível Legal (ICL), Carlo Faccio, que elenca:
“Então, o maior número de fraudes identificadas de qualidade fica na gasolina, em segundo lugar no diesel e, em terceiro, o etanol, porque o prêmio é menor”.
Combustível adulterado é uma triste rotina
Brasileiro já se acostumou a abastecer com combustivel adulterado
Engin Aykurt
E as chances de você botar um combustível modificado não são pequenas, infelizmente. De janeiro a agosto, das quase 9 mil fiscalizações feitas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) em postos dentro do Programa de Monitoramento da Qualidade dos Combustíveis (PMQC), 455 apresentaram inconformidades de qualidade.
Porém, no projeto chamado Cliente Misterioso (leia mais adiante), do ICL, o índice de combustível adulterado constatado pode chegar a 10%, maior que os 5% da fiscalização da ANP – o instituto faz investigações a partir de denúncias e de dados de inteligência.
Resultado: foram 200 estabelecimentos que apresentaram alguma irregularidade na qualidade do combustível em uma amostragem de pouco mais de 2.100 postos. Só em relação à gasolina, das 1.414 coletas, quase 12% tinham alguma inconformidade.
Efeito cascata
Quanto mais moderno o motor, maior é a vulnerabilidade ao combustível adulterado
Renato Durães/Autoesporte
Seja qual for o combustível adulterado, os danos são quase certos. Apenas variam conforme o grau de adulteração, o tempo em que o produto foi usado e o tipo de veículo e motor.
Everton Lopes, mentor de energia a combustão da SAE Brasil, alerta que, em casos mais severos, a adulteração pode provocar danos a componentes do sistema de alimentação e do motor. Com prejuízos na ordem de milhares de reais.
“Além do custo direto de manutenção, existe um custo indireto associado ao aumento do consumo de combustível e à redução da vida útil dos componentes. Portanto, o impacto econômico deve ser analisado ao longo de todo o ciclo de vida do veículo”, ressalta o engenheiro.
Na gasolina, alguns velhos crimes de adulteração seguem em curso. Como mais etanol que os 32% permitidos na gasolina hoje – o ICL diz que pegou postos no estado do Rio de Janeiro com assustadores 96% de combustível de origem vegetal.
Para carros com motor flex, nenhum impacto – o impacto maior é no bolso do cliente, que vai por um combustível que tem menor eficiência pagando mais caro. Para carros que não são flex o excesso de etanol pode causar corrosão precoce de componentes metálicos, ressecamento de mangueiras e falhas no sistema de injeção.
Porém, ainda tem a gasolina adulterada com solventes industriais. Estas substâncias baixam a octanagem da gasolina, o que provoca a pré-detonação (a famosa batida de pino). A longo prazo isso pode quebrar anéis e pistões do motor.
Motores modernos sofrem mais
Bicos injetores de carros mais modernos são mais degradados
Renato Durães/Autoesporte
Sem falar que solventes podem contaminar o óleo lubrificante, aceleram a degradação de peças de borracha e causam entupimento dos bicos injetores.
Se levarmos em conta motores mais modernos, com adoção de turbo, injeção direta e níveis de eletrificação, o combustível adulterado é um veneno ainda mais perigoso. Com poder de envenenar a lubrificação do powertrain.
“A gente hoje tem uma pluralidade de motores muito grande. Um híbrido ou carro com start stop, por exemplo, fica no anda e pára, no liga e desliga. Grande parte do efeito de blow-by, que é a passagem do combustível não queimado para o lubrificante, acontece geralmente nos momentos de partida”, alerta Fernanda Ribeiro, gerente de produtos da Iconic – responsável pelas marcas Ipiranga e Texaco.
“Quanto mais sofisticados são os motores e os sistemas de controle de emissões, maior é a sensibilidade à qualidade do combustível. Motores com injeção direta trabalham com maiores pressões e temperaturas e, por isso, têm menor margem para combustíveis fora de especificação”, reforça Everton, da SAE.
Se formos para os chamados veículos de marcas de luxo, o estrago causa prejuízos ainda maiores. Diego Dias, dono da DG Garage, oficina em Duque de Caxias (RJ) especializada em carros premium, explica que a gasolina batizada afeta especialmente, bombas de alta e baixa pressão, catalisadores e injetores.
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“Se o bico travar fechado pode acarretar no derretimento do pistão. Se o bico travar aberto pode causar calço hidráulico. Além disso, em alguns casos, até o catalisador precisa ser substituído”, afirma.
O mecânico lembra do caso de um cliente que tinha um modelo BMW e que estava em viagem. Colocou gasolina modificada, um dos bicos injetores travou aberto e o combustível adulterado passou direto e contaminou o catalisador.
“O catalisador ficou incandescente e iniciou um princípio de incêndio em um carro de mais de 300 mil reais. Um prejuízo de quase 30 mil reais”, conta.
O famoso etanol “molhado”
ANP fiscaliza a qualidade dos comubstíveis no Brasil
Divulgação/ANP
No etanol, o inimigo é o excesso de água. A legislação permite 7%, no máximo, de água no etanol combustível. Para aumentar o lucro, os fraudadores colocam mais que o permitido e o que vai para o tanque é o chamado “álcool molhado”.
Corrosão e problemas no sistema de injeção são os mais comuns. Só que esse etanol aguado na mistura com a gasolina pode provocar separação de fases, comprometendo a combustão e o funcionamento do motor.
Ainda tem a contaminação do metanol, que, pelas regras da ANP, tem tolerância de 0,5% em volume como “contaminação não intencional”. Os casos de adulteração com metanol são em menor escala, mas também acendem o alerta.
“O metanol tem uma acidez e uma corrosividade diferentes da do etanol. Então, você acaba afetando de maneira mais complexa o conjunto mecânico”, observa Fernanda.
Diesel ruim afeta bomba e injetores
Bomba de posto de combustível interditada pelo Inmetro
Reprodução/Ipem e Inmetro
No diesel, uma adulteração recente é o excesso de biodiesel no diesel — por lei, são 15%. Fraude que também é sazonal.
“Quando o produto fica muito atrativo, eles colocam mais. Quando o produto fica pouco atrativo, colocam menos. Nós tivemos situação de venda de diesel puro no Brasil, sem biodiesel, porque o biodiesel estava muito caro. Agora está o inverso”, explica Carlo, do ICL.
O drama é que o biodiesel favorece a proliferação de material orgânico. Em excesso, pode afetar tanque, filtro, sensores, bomba de alta pressão, flauta e bicos injetores.
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As adulterações mais comuns do diesel, porém, ainda passam por adição criminosa de querosene ou nafta, para aumento do volume. Como se trata de um combustível que tem função também de lubrificar e refrigerar outros componentes, o estrago tende a ser maior.
As consequências recaem principalmente na bomba de alta pressão e nos bicos. Mas também sobra para os sistemas específicos de propulsores do tipo, como o DPF (Filtro de Partículas Diesel) e o SCR (Redução Catalítica Seletiva), que atua com o Arla 32.
Sobrou até para o Arla…
Arla 32 ajuda a reduzir as emissões de carros diesel
André Paixão/Autoesporte
E nesta “selva” de produto adulterado, sobrou até para esse que não é combustível. Exatamente: o Arla 32, que tem a função de reduzir a emissão de poluentes gerados por motores diesel, vem sendo alvo de fraudes.
“Arla fora de especificação pode causar cristalização, entupimento de injetores, problemas na bomba e sensores e até danos ao catalisador. Além do aumento das emissões, o veículo pode entrar em modo de proteção e limitar seu desempenho”, explica Everton Lopes.
Ou seja, o combustível adulterado traz não só prejuízos para o bolso do consumidor, como também para a sociedade.
Além do Arla, em todos os casos de fraudes descobertos, um dos efeitos principais é o mau funcionamento do motor, que vai trabalhar nas piores condições, perder sua eficiência e, consequentemente, emitir mais poluentes.
“O problema deixa de ser apenas individual. Em escala nacional, combustível adulterado contribui para reduzir a eficiência energética da frota, aumentar emissões, antecipar manutenções e reduzir a vida útil dos veículos”, explica o engenheiro da SAE.
Índices de inconformidade no combustível
ANP
8.971 fiscalizações (janeiro a agosto/26)
525 com infração de qualidade ou quantidade (6%)
Estados com maiores incidências: Rio de Janeiro (12%), Alagoas (10%), Ceará (9%)
ICL – Cliente Misterioso
2.101 coletas (janeiro a agosto/26)
681 com inconformidade de qualidade ou quantidade (32%)
Estados com maiores incidências: Rio de Janeiro (71%). Ceará (55%, Maranhão (35%)
Como se prevenir
Abasteça em postos em que você já está acostumado
As bombas devem estar lacradas e com informações exigidas pela ANP, como CNPJ, endereço correto do posto e selo do Inmetro.
Existe uma resolução – até antiga – da ANP que obriga todos os postos a terem um kit para teste de proveta, que mede a quantidade correta de etanol na gasolina e que deve ser realizado na frente do cliente sempre que ele requisita.
O posto também é obrigado a fazer o teste de vazão para ver se a quantidade de líquido condiz com o registrado na bomba
As bombas de etanol têm de ter um visor lateral transparente com termodensímetro que mostra a qualidade e a densidade do combustível
O carro dá sinais
Principais sintomas de combustível adulterado:
dificuldade de partida no motor
funcionamento irregular do motor em marcha lenta
perda de potência
falhas nas acelerações
aumento do consumo de combustível
detonação ou pré-ignição (batida de pino)
formação excessiva de depósitos
falhas no sistema de injeção
defeitos precoces em bombas, injetores, velas e componentes do sistema de pós-tratamento
Denuncie
ANP – 0800 970 0267 ou www.anp.gov.br
ICL – institutocombustivellegal.org.br
Como funciona o cliente misterioso
Programa do ICL ajuda a fiscalizar os postos de combustível do Brasil
Divulgação/ANP
O programa Cliente Misterioso do Instituto Combustível Legal faz uma fiscalização em postos a partir de denúncias ou mesmo monitoramento. Um carro aparentemente normal percorre estabelecimentos selecionados e faz o abastecimento.
Porém, o bocal do tanque deste veículo é um coletor. No porta-malas ficam cinco tanques segregados com sistema de coleta automática. Os combustíveis então são encaminhados para testes químicos e físicos em laboratório em que se verificam a qualidade e a quantidade.
Ao fim é feito um relatório técnico. Caso seja identificado algum tipo de inconformidade, o documento é encaminhado para os órgãos públicos para eventuais fiscalizações e autuações.
O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O GLOBO, Valor Econômico e Extra e da rádio CBN, com patrocínio da Philip Morris Brasil, do Instituto Combustível Legal, do Mercado Livre e da BAT Brasil, e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) e Aegea.
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