China rouba protagonismo em carros autônomos e essa luz azul é a prova


Observei um padrão comum a quase todos os carros no Salão do Automóvel de Pequim 2026: a presença de pequenos filetes de luz em uma tonalidade azul turquesa, quase verde, posicionados nos faróis e/ou grade frontal de diversos veículos, além das pontas dos retrovisores externos e na parte traseira, onde ficam posicionados ou nas próprias lanternas ou no para-choque.
Parece um detalhe fortuito, que poderia passar como mais uma entre as tantas extravagâncias nos carros daquele país. Quem já não se acostumou com os chamativos acabamentos em múltiplos tons, as iluminações internas de LED e algumas soluções exóticas de design externo? Mas não se trata de um mero elemento estético. Na verdade, é uma pequena demonstração do próximo passo que a indústria automotiva chinesa está dando rumo ao protagonismo global.
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Já é ponto pacífico que os veículos chineses se tornaram referência em eletrificação. Quando se fala de tecnologias híbridas e elétricas, eles já estão um passo à frente do resto do mundo. Mesmo em outros detalhes de um automóvel, como o nível de segurança, a qualidade construtiva e o padrão de acabamento, a evolução dos chineses já os coloca em condições de igualdade com fabricantes de países tradicionais, como Alemanha, Japão e Coreia do Sul.
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Faltava assumir as rédeas da condução autônoma. Este tópico, antes tão presente nas rodas de discussão do Vale do Silício, nos Estados Unidos, que parecia liderar com sobras o desenvolvimento da tecnologia, passou a ser o novo foco de atenção dos chineses, como uma espécie de próximo passo para pavimentar o domínio da indústria automobilística mundial.
Mercedes-Benz EQS com luzes turquesa que indicam condução autônoma ativada
Divulgação/Mercedes
Nos últimos dez anos, sempre que pensávamos em um carro autônomo, o que vinha à menta era aquele veículo da divisão especializada do Google, a Waymo, rodando sem passageiros enquanto fazia entregas em modo de teste ou atrapalhava o trânsito de alguma cidade qualquer da Califórnia, com um grosseiro conjunto de câmeras, radares e sensores posicionados no teto do veículo.
Mercedes-Benz EQS: close mostra as luzes azuis ativadas
Divulgação/Mercedes
A partir de agora, o símbolo de desenvolvimento dessa tecnologia passa a ser o tal conjunto de luzes azuis turquesa descrito no início desta reportagem. Quando acesas, elas indicam que um carro chinês está com o sistema de condução autônoma nível 3 ativado. Ou seja, está rodando naquele momento sem interferência humana, embora tenha um motorista a bordo.
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Nessa nova geração de carros chineses, muitos desses veículos já são capazes de fazer isso não só em ambiente rodoviário, como também urbano, contornando curvas mais complexas, trocando de faixa e até desviando de obstáculos de modo automático. Este conceito de condução é chamado NOA, sigla em inglês que significa “navegação em modo Autopilot”.
Mercedes-Benz EQS com a luz turquesa de condução autônoma ativada na traseira
Divulgação/Mercedes
Para que isso seja possível, o veículo precisa estar munido de ferramentas como o sistema Lidar (de detecção óptica por laser), conexão à internet 5G e integração com a navegação GPS por meio do conceito D2D (de um dispositivo direto para o outro).
Luzes de condução autônoma também aparece nos retrovisores externos
Divulgação/Cadillac
Nos últimos anos, o Ministério da Indústria e Informação Tecnológica da China tem proposto uma série de reformulações nas regulamentações do país, formalizando padrões para sistemas como o de monitoramento do motorista em veículos autônomos. Tais medidas vêm acelerando o processo de desenvolvimento de tecnologias de condução autônoma por parte de fabricantes locais e empresas fornecedoras.
Desde 2025, pelo menos nove grandes montadoras chinesas e suas respectivas submarcas já possuem veículos lançados no mercado com a tecnologia NOA para condução semiautônoma em ambiente urbano. É o caso de BYD, GWM, Leapmotor, grupo Geely, Changan, GAC e xPeng.
BYD Fang Cheng Bao 3, que no Brasil deve ser vendido como Denza T3, com a luz turquesa ativada no retrovisor
André Schaun/Autoesporte
Entre os recursos está o estacionamento autônomo, que permite a um veículo entrar ou sair sozinho de uma vaga, perpendicular ou paralela, sem qualquer interferência do condutor e com um nível de precisão muito melhor do que no passado. No Brasil, já é possível experimentar esses recursos em modelos como o Caoa Changan Uni-T, que entra ou sai de uma vaga em linha reta por comandos na chave, ou o GWM Ora 5, capaz de estacionar sozinho em vagas perpendiculares ou paralelas.
Caoa Changan Uni-T tem truque de carro de luxo para sair de vagas apertadas
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Participei de um teste do sistema NOA da GWM com o novíssimo SUV de luxo Wey V9X, andando como passageiro em um trajeto de cerca de 2 km pelo centro de Baoding, cidade onde fica a sede da Great Wall Motor. Também acompanhei o funcionamento de seu estacionamento 100% autônomo.
GWM Tank 700 Hi4-Z exposto no Salão de Pequim 2026 com a luz azul turquesa acesa no retrovisor
Leonardo Félix/Autoesporte
Apesar de ter um motorista sempre pronto para assumir a direção em caso de necessidade, o carro se mostrou capaz de trocar de faixa, de pista de rolagem, virar de uma rua para outra ou até desviar de uma bicicleta parada na rua sozinho, sempre baseado na navegação GPS e nos dados coletados pelo Lidar. É claro que o sistema não é perfeito ainda. Tanto que o condutor precisou interferir em vários momentos. No entanto, a evolução exibida ali é clara.
E com uma vantagem importante: enquanto nos Estados Unidos as metas são arrojadas e muitas vezes irreais – lembro que, dez anos atrás, dizia-se que carros 100% autônomos seriam realidade já em 2020, o que passou muito longe de se concretizar –, na China não há anúncios mirabolantes nem promessas de soluções miraculosas. Mas há investimentos e muito trabalho para avançar na questão passo a passo.
E, assim, a indústria automotiva chinesa começa a se tornar referência e exercer liderança em mais uma área onde antes parecia estar atrás. Quem será capaz de segurá-los?
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