Toyota Hilux tem falha na maçaneta que facilita furto, conclui polícia


Uma falha de projeto da Toyota Hilux está se tornando a oportunidade perfeita para criminosos no Brasil, que utilizam a vulnerabilidade para acessar a picape com facilidade. O problema ganhou luz após um surto de furtos da Hilux na fronteira do Brasil com o Paraguai. A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul decidiu investigar a questão e detalhou o modo de acesso à caminhonete, em relatório ao qual Autoesporte teve acesso.
Segundo a corporação, a falha é amplamente conhecida pelos assaltantes. A fins de conscientização e exposição do problema, optamos por compartilhar detalhes do método — que pode ser prevenido. Procurada pela reportagem, a Toyota disse que não iria se pronunciar.
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Sinal de alerta
A questão da Hilux despertou atenção dos policiais em setembro de 2025, quando uma quadrilha especializada no furto de caminhonetes foi alvo de operação em Campo Grande (MS).
Os agentes constataram uma preferência pela picape da Toyota e sua variante SUV, o SW4 — que até poderia ser explicada pelo valor dos carros da montadora japonesa no mercado paralelo, devido à alta durabilidade.
Um sinal de alerta mais forte acendeu, porém, entre janeiro e abril de 2026, quando 34 unidades de Hilux ou SW4 foram levados no MS, com um detalhe importante: todas tinham sido fabricadas entre 2016 e 2022 — 69% desse volume de 2019 em diante.
Chaves de fenda utilizadas pela quadrilha deram a dica do método para a Polícia Civil de MS
Polícia Civil de Mato Grosso do Sul
A dica do como isso era feito veio com uma chave de fenda do tipo 5/16 x 14” — fina e alongada — encontrada junto aos equipamentos de furto da quadrilha. A partir daí, os policiais fizeram uma espécie de engenharia reversa e chegaram à sua hipótese de como a ação acontece.
Como funciona?
Segundo o relatório da Polícia Civil, a falha de Hilux e SW4 reside no mecanismo de “chave inteligente”, que permite a abertura das portas automaticamente, assim que o condutor, portando a chave, se aproxima do veículo.
Normalmente, esse sistema é composto por uma antena de rádio junto à porta, que capta e decodifica o sinal criptografado da chave, liberando o carro. Ao inserir a chave de fenda na maçaneta, entretanto, o criminoso consegue fazer uma espécie de ligação direta no circuito, que é entendida como um sinal legítimo da chave para abrir as portas.
Segundo a Polícia Civil, maçaneta da Toyota Hilux tem falha sensível de segurança do projeto
Divulgação/Toyota
Isso, segundo a polícia, é especialmente importante, pois assim o carro entende que a abertura foi feita pela chave original e não há qualquer acionamento de alarme. Consequentemente, é possível entrar na Hilux e realizar a segunda etapa do furto com calma.
Essa segunda etapa consiste em ligar o carro em si. Para tanto, acreditam os agentes, utiliza-se computadores que custam até R$ 30.000 e são capazes de reprogramar chaves genéricas para que essas deem a partida no motor, contornando a proteção eletrônica de fábrica.
“Todavia, a partir de 2025 passaram a ser apreendidos equipamentos similares de menor custo, comercializados inclusive em plataformas digitais por valores inferiores a R$ 5.000”, alerta o documento, assinado por dois delegados do estado.
Chave de fenda ou objeto de formato similar serve para forçar a porta e causar erro no sistema que destrava o carro
Polícia Civil de Mato Grosso do Sul
Como se proteger?
Segundo um especialista em cybersegurança da indústria automotiva, o uso desses aparelhos de hack dos carros é um problema global, mas que é constantemente combatido por meio de atualizações das marcas.
“É um jogo de ‘gato e rato’. Volta e meia descobrimos algum bypass da arquitetura eletrônica do carro e lançamos, discretamente, uma atualização para dificultar a quebra”, explica o engenheiro, sob anonimato requerido pelo cargo. “Quando o assaltante tem tempo de sobra para agir em um modelo já lançado e conhecido, entretanto, suas chances aumentam bastante”.
A polícia concorda, e reforça o que parece ser uma falha de projeto físico: especificamente, vulnerabilidades nas “regiões da maçaneta, miolo, acabamento externo e espaço interno da porta”, que permitem a inserção da ferramenta e invasão do carro com danos praticamente invisíveis.
Toyota Hilux é a picape média mais vendida do Brasil, com 19.479 emplacamentos até maio
Divulgação/Toyota
“As organizações criminosas passaram a identificar que o acesso ao sistema era rápido, demandava reduzido esforço físico, permitia o contorno do alarme original e deixava poucos vestígios aparentes de arrombamento, circunstâncias que contribuíram significativamente para a expansão do modus operandi em diferentes regiões do país”, diz o relatório.
Mas não é o único método: ao redor do mundo, há relatos da imprensa especializada que citam até frestas nos faróis como áreas de vulnerabilidade da Hilux, permitindo algum tipo de truque dos assaltantes.
Em todo caso, explica o investigador particular Fabrício Meirelles, a solução mais eficaz é utilizar uma trava extra no veículo, que representa um obstáculo a mais para os ladrões.
“Pode ser um imobilizador pós-mercado com PIN integrado à rede CAN do carro, rastreador homologado pela seguradora e trava física visível, como bloqueio de volante ou roda”, diz.
A Toyota não se pronunciou sobre o problema no projeto da Hilux
Autoesporte
“Somadas, essas etapas dificultam tanto a entrada via maçaneta quanto a clonagem posterior da chave e ganham tempo até a resposta policial”.
Falha de projeto
A sutileza no furto foi destacada pelo agrônomo Daniel Rocha, que teve sua Toyota Hilux 2021 levada no ano passado, nas proximidades de Ponta Porã (MS), na fronteira do Brasil com o Paraguai.
“Estava voltando do trabalho e parei em um restaurante em que tenho costume de jantar”, conta. “A caminhonete estava em um local escuro, mas eu conseguia vê-la parcialmente. Mas foi tudo tão discreto que, quando olhei de novo, ela já tinha sumido”.
Rocha exibiu, reservadamente, as imagens de câmeras de seguranças para a reportagem. Nelas, nota-se um homem que força a maçaneta da picape um objeto longo e fino e, em menos de dois minutos, consegue entrar sem qualquer alarme. Após alguns minutos de trabalho na cabine, ele dá a partida e some.
“Me disseram que provavelmente ela estaria no Paraguai. Recorri ao seguro e preferi virar a página”, respondeu quando questionado se foi atrás do paradeiro do veículo.
Depois de entrar na Toyota HIlux, criminosos usam computadores para conseguir ligar a picape
Autoesporte
Mas a questão não parece se limitar à zona de fronteira: em 2025 e 2026, forças policiais desarticularam “Gangues da Hilux” em ao menos oito estados. Em Minas Gerais, por exemplo, 80 picapes sumiram só em janeiro de 2025 — número que caiu pela metade após oito líderes serem presos.
No Espírito Santo, a Polícia Civil prendeu o homem apontado como chefe da quadrilha capixaba, em abril de 2025. No Distrito Federal, a Operação Império apurou R$ 16 milhões em prejuízos e mirou um grupo que furtou 53 Hilux e SW4 só no ano passado. Outras ações relevantes incluem a Rota do Cone Sul, que atingiu quadrilhas em SC, PR, MG e BA, com veículos revendidos também na Argentina e no Chile.
A escala do problema fez o setor reagir. Desde julho de 2023, diferentes estacionamentos pagos instalam travas de roda em qualquer Hilux estacionada no local, sem precisar de autorização do dono — medida que já foi adotada também por grandes redes de varejo, em suas áreas de parada.
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