Porta-malas: falta de padrão na medição pode ser pegadinha para consumidor


O Fiat Fastback é um exemplo claro de como os números de porta-malas podem confundir. O modelo tem dois volumes divulgados: 516 litros no padrão VDA, considerado referência técnica, e 600 litros no volume líquido/bruto. Na prática, isso significa que o mesmo carro pode parecer maior ou menor dependendo do critério adotado, uma diferença de 84 litros que não representa necessariamente mais espaço utilizável no dia a dia. Essa falta de padrão na medição pode ser pegadinha para o consumidor.
Essa discrepância acontece porque nem todas as medições seguem o mesmo critério. E, embora existam normas técnicas para padronizar esse cálculo, elas não são obrigatórias para divulgação comercial. Resultado: comparar carros apenas pelo número de litros pode levar a interpretações equivocadas.
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Existe padrão, mas ele não é obrigatório
Segundo Alisson Sarmento, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, o Brasil possui normas como a ABNT NBR 8281 e a ABNT NBR ISO 3832, que padronizam a medição do porta-malas com base no método VDA/ISO. No entanto, isso não significa que todas as marcas sejam obrigadas a seguir.
“A norma ABNT não é lei. Ela só se torna obrigatória se for citada em algum regulamento governamental, o que hoje não ocorre especificamente para volume de porta-malas”, explica o especialista. Na prática, o método VDA virou uma referência de mercado, mas não um padrão imposto, o que abre espaço para medições alternativas.
O que é o padrão VDA e por que ele é mais confiável
O método VDA é abreviação de Verband der Automobilindustrie, que em português significa Associação da Indústria Automotiva Alemã. Esse método mede o porta-malas com blocos rígidos de 1 litro, acomodados de forma organizada até o limite em que a tampa possa ser fechada normalmente e o tampão permaneça na posição correta. Esse sistema foi incorporado à norma ISO 3832 e serve de base para as normas brasileiras.
Para Sarmento, a principal vantagem está na aproximação com o uso real. “Esse método é mais confiável porque não considera pequenos espaços onde uma mala não caberia. Ele simula melhor o uso cotidiano”, afirma . Isso evita inflar artificialmente o volume com áreas que não são aproveitáveis.
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Até o tampão ou até o teto: a origem da diferença
Ai que está a pegadinha das fabricantes: um dos principais fatores por trás de números diferentes é a altura considerada na medição. Quando o volume é calculado até o tampão, ele representa o espaço utilizável de forma segura. Já a medição até o teto inclui um volume adicional que, embora exista fisicamente, não é recomendado para uso.
Sarmento explica que esse tipo de medição mais “generosa” é comum quando as marcas querem destacar números maiores, especialmente em SUVs. O problema é que empilhar bagagem acima da linha dos vidros compromete a visibilidade e aumenta o risco em frenagens.
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Mesmo volume, uso diferente
Outro ponto importante é que dois carros podem ter exatamente o mesmo volume em litros e, ainda assim, oferecer experiências muito diferentes. Isso ocorre por fatores como método de medição, geometria interna e distribuição do espaço.
“O mesmo volume total pode ter formatos completamente distintos, com diferenças de largura, altura e profundidade, além de intrusões como caixas de roda e degraus”, explica Sarmento . Esses detalhes influenciam diretamente na capacidade de acomodar malas, carrinhos de bebê ou caixas maiores.
Formato pode valer mais que litros
Na prática, o formato do porta-malas costuma ser mais relevante do que o número declarado. Um compartimento com paredes retas, abertura ampla e menos obstáculos tende a ser mais funcional, mesmo com menor volume na ficha técnica.
Por outro lado, um porta-malas maior em litros, mas com muitos recortes e áreas irregulares, pode ser menos eficiente. Essa é uma diferença que só aparece no uso real e que não é capturada pelos números oficiais.
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Como avaliar corretamente antes de comprar
Para evitar erros na comparação, o consumidor deve primeiro identificar qual método foi utilizado na medição e priorizar números no padrão VDA/ISO. Também é importante comparar apenas dados obtidos pelo mesmo critério, já que misturar métodos diferentes distorce completamente a análise.
Sarmento também recomenda uma avaliação prática. “O ideal é abrir o porta-malas, observar o formato, verificar intrusões e, se possível, testar com objetos reais. Isso dá uma noção muito mais fiel do espaço disponível”, orienta.
Outro cuidado é entender se o volume divulgado considera o espaço até o tampão ou até o teto, já que isso altera significativamente a percepção de capacidade.
Com diferentes métodos, formatos e estratégias de divulgação, o consumidor precisa olhar além da ficha técnica. No fim, mais importante do que o número é entender como aquele porta-malas funciona no uso real e se atende às necessidades do dia a dia.
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