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Inverno na Transamazônica: a dupla que não deixa ninguém atolado na Amazônia

18/04/2026
Inverno na Transamazônica: a dupla que não deixa ninguém atolado na Amazônia


Próximo ao km 400 da BR-319, a “Rodovia Fantasma”, no coração da Floresta Amazônica, a chuva ficou intensa e a estrada de terra virou um grande lamaçal. Um caminhão Mercedes-Benz Atron 1319, com quase 9 metros de comprimento, atolado, deixava apenas um espaço no canto da pista para passagem. A dupla do canal Inverno na Transamazônica entrou em ação imediatamente. Thiago Correia e Raphaell Groeff amarram uma ponta da corda com anilha de aço no reboque traseiro da Mitsubishi L200 e outra no caminhão. E, em menos de 10 minutos, o caminhão saiu do atoleiro.
Trechos intransitáveis, veículos atolados e a dupla ajudando quem está preso na estradas críticas da Amazônia são cenas comuns. O canal no YouTube “Inverno na Transamazônica” foi criado por Thiago há mais de 10 anos, mas começou a crescer a partir de 2021, quando formou dupla com Raphaell. No início, os resgates aconteciam entre Uruará e Placas, no interior do Pará, onde passa a BR-230, a Transamazônica.
Autoesporte percorreu 1.500 km entre BR-319 e Transamazônica e acompanhou o trabalho do Inverno na Transamazônica. Dê o play e assista:
A Transamazônica foi inaugurada em 27 de agosto de 1972 e tem exatos 4.260 km de extensão entre a cidade portuária de Cabedelo, na Paraíba, e o município de Lábrea, no Amazonas. No total, a rodovia passa por sete estados da federação: Paraíba, Ceará, Piauí, Maranhão, Tocantins, Pará e Amazonas.
E foi justamente a criação dela, que prometia um grande avanço econômico para a Amazônia, que atraiu as famílias de Thiago e Raphaell para o Pará. Na prática, o que aconteceu foi que com o passar dos anos essa promessa de desenvolvimento nunca aconteceu e a rodovia foi ficando abandonada até chegar no perigoso estágio atual, mais de 50 anos depois. Autoesporte explica neste artigo os principais motivos que fazem essas estradas estarem paradas no tempo há mais de 50 anos.
Muitos caminhões ficam atolados nas estradas da Amazônia
Murilo Góes/Autoesporte
Autoesporte atravessou a BR-319 inteira, em seus quase 900 km de extensão entre Manaus, capital do Amazonas, e Porto Velho, capital de Rondônia, e dirigiu mais 500 km no trecho final da Transamazônica, até o município de Lábrea. Durante esse trajeto, Thiago e Raphaell desatolaram ao menos três caminhões.
Como surgiu o Inverno na Transamazônica
Thiago Correa, na esquerda, e Raphaell Groeff, na direita, ao lado da L200 2011/2012
Murilo Góes/Autoesporte
Thiago nasceu em Itagimirim, na Bahia, e quando tinha um ano seus país se mudaram para o Pará. Até os 10 anos viveu em Placas, e depois se mudou para Uruará — onde vive atualmente, aos 41 anos. Já a família de Raphaell, 31 anos, foi da região sul do país para Uruará no início da década de 1970, atraída pela chegada da Transamazônica.
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Apesar de mais de uma década de criação, o canal cresceu por volta de 2021 após a dupla começar a filmar os resgates dos atoleiros de caminhões e carros no interior do Pará na época de chuva, entre dezembro e junho, no conhecido “inverno transamazônico” — vem daí a origem do nome do canal. Nestes seis meses de chuvas intensas, a BR-230 vira um cenário de atoleiros extremos, paralisando o tráfego por centenas de quilômetros e exigindo resgates voluntários.
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Desde o início do canal, os resgates são feitas com a L200 de 2011/2012 do Thiago, equipada com o motor 3.2 turbodiesel 8V (4M41) de 163 cv e 38,1 kgfm. Muitos consideram este o melhor motor que a picape já teve, reconhecido pela durabilidade, facilidade de manutenção e bom desempenho em baixas rotações. O câmbio, neste caso, é automático de quatro marchas e tração 4×4 com reduzida.
Mas para encarar os piores solos da Amazônia, fizeram algumas modificações. Começando pelo motor 3.2 que teve Remap Stage Rally, que otimiza a injeção e ignição, oferecendo aumento significativo de potência e torque, em cerca de 50 cv e 12 kgfm, em média.
Mitsubishi L200 do dupla “Inverno na Trasamazônica”
Murilo Góes/Autoesporte
Na carroceria, a dianteira tem um para-choque de aço com guincho de 12.000 kg e rock sliders nas laterais, que são um tipo específico de estribo projetado não só para facilitar o acesso ao veículo, mas principalmente para proteção em off-road ao ter impacto com pedras, troncos e outros objetos que podem danificar a carroceria.
As rodas de aço aro 16 têm pneus MUD, que são específicos para dar tração na lama. Além disso, o para-choque traseiro também é de aço e a caçamba é cheia de coisas, como ferramentas, várias cintas de resgate, correntes, motosserra e galões para transportar diesel.
Inverno na Transamazônica atua mais na região do Pará
Inverno na Transamazônica
“Durante o período de chuvas, o trabalho é praticamente diário. Tem semanas que saímos todos os dias para resgates. Às vezes saímos de manhã e voltamos só à noite, percorrendo longas distâncias. Nos outros meses, conseguimos focar mais na edição de vídeos e na atividade rural, mas os resgates continuam, pois ainda ocorrem chuvas e problemas na estrada”, explica Thiago.
Sobre apoio do poder público para ajudar a população, praticamente não existe. Thiago ressalta que só existe auxílio quando há equipes do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte (DNIT) fazendo a manutenção de algum trecho. Caso contrário, os resgates são feitos por moradores ou pessoas com tratores particulares.
Inverno na Transamazônica ajuda voluntariamente as pessoas
Murilo Góes/Autoesporte
O DNIT, uma autarquia federal vinculada ao Ministério da Infraestrutura, é o órgão responsável por gerir as rodovias federais que não são concedidas à iniciativa privada.
Como o trabalho é voluntário, os dois sempre pagaram os custos de manutenção do carro, porque há grande desgaste dos equipamentos. Com o crescimento do canal nos últimos anos, o cenário está mudando. Thiago é formado em administração e fez curso técnico em manejo florestal, área que trabalhou por muitos anos. No começo, ele fazia os resgates nas folgas, usando dinheiro próprio.
Inverno na Transamazônica durante resgante na BR-319
Murilo Góes/Autoesporte
“Hoje conseguimos nos manter, cobrir despesas e manutenção. Ainda temos pouco patrocínio, e geralmente é como parceria de produtos, não dinheiro. Algumas poucas empresas pagam em dinheiro, mas a maioria ajuda com peças, equipamentos ou serviços, tornando uma fonte de renda indireta, já que poupamos gastos do próprio bolso. Atualmente não trabalho mais com manejo florestal. Saí há uns três anos. Continuo na atividade rural, criando gado. O Raphaell trabalha com cacau”, diz Thiago.
A dupla explica que, em casos mais graves, como tombamentos, entram equipes especializadas com guinchos e máquinas. Neste caso, eles ajudam com sinalizações e suporte. Em casos mais extremos, como nos acidentes envolvendo ônibus, principalmente, eles têm um papel fundamental para auxiliar às vítimas, principalmente com transporte de mantimentos e alimentos enquanto o resgate não chega ou é feito por eles mesmos. “Já desatolamos muitas ambulâncias”.
Thiago e Raphaell fazem transmissão em tempo real sobre os locais
Murilo Góes/Autoesporte
“Os resgates mais difíceis são em ladeiras ou situações de risco de tombamento. Já tivemos que usar vários veículos ao mesmo tempo para evitar acidentes. Essa região é muito produtiva, com pecuária e cacau, por isso o fluxo é intenso, mas a região sofre com a falta de infraestrutura, por isso muitas carretas tombam e isso dificulta o escoamento da produção”, ressalta Raphaell.
Atualmente, seja pela Transamazônica, na BR-319 ou em qualquer local da Amazônia que a população precise de ajuda nos atoleiros, o Inverno na Trasamazônica faz transmissões ao vivo pelo YouTube (@INVERNONATRANSAMAZÔNICA), com internet via satélite, sobre a situação dos locais, servindo como uma espécie de boletim em tempo real.
Inverno na Transamazônica atual principalmente no interior do estado do Pará
Inverno na Transamazônica
Eles são muito conhecidos na região e é comum a população das cidades e municípios por onde passam recebê-los com carinho, admiração e festa, agradecendo pelo trabalho voluntário que eles prestam. Isso aconteceu em Manaus, Careiro Castanho, Humaitá, Lábrea e Porto Velho, durante os quase 1.500 km que Autoesporte esteve com a dupla.
Esse justo reconhecimento vem pela mobilização voluntária de fazer algo que deveria ser função do poder público, que deixa a população viver nessa situação extrema e perigosa com rodovias em estado precário. A L200 deles está com mais de 330 mil km rodados e, de acordo com Thiago, eles já realizaram bem mais de 1.000 resgates pela Amazônia. Para acompanhar o trabalho deles nas redes sociais, o Thiago é encontrado no perfil “@invernonatransamazonica” e o Raphaell no perfil “@oscacadoresdeatoleiros”.
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Fonte: Read More 

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