Existe melhor horário para abstecer o carro? Entenda se há vantagem


Abastecer o carro pela manhã ou à noite, quando a temperatura está mais baixa, rende mesmo mais combustível? A recomendação circula há anos e parte de um princípio físico verdadeiro: gasolina e etanol ficam mais densos no frio. Seguindo essa lógica, a temperaturas menores, um mesmo volume de combustível poderia render mais massa e gerar economia.
O problema está em transformar esse fenômeno em uma regra na hora de abastecer o carro no posto. Isso porque a temperatura do combustível armazenado não acompanha imediatamente as oscilações atmosféricas, principalmente porque os tanques ficam no subsolo. Por isso, a diferença entre abastecer nas primeiras horas da manhã e no meio de uma tarde quente tende a ser muito menor do que a crença popular sugere.
Gasolina e etanol podem sofrer alterações mais perceptíveis na temperatura quando há uma nova carga de combustível
Renan Rodrigues/Autoesporte
“Há fundamento físico para a ideia, mas não a ponto de transformá-la em uma regra prática de economia”, ressalta Fábio Raia, professor da Escola de Engenharia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A afirmação de que ‘abastecer mais cedo ou tarde da noite sempre traz vantagem econômica perceptível’ não é tecnicamente adequada.”
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Por que a temperatura altera o combustível?
Para entender de onde surgiu a ideia de procurar abastecer em um melhor horário é preciso compreender a relação entre temperatura, volume e densidade. “Quando um combustível líquido é aquecido, ele sofre expansão térmica: seu volume aumenta enquanto sua massa permanece praticamente constante. Como a densidade é a razão entre massa e volume, o aumento do volume provoca redução da densidade”, explica Raia.
O contrário ocorre quando o combustível esfria. Com a redução do volume e a manutenção da massa, a densidade aumenta. “Consequentemente, para um mesmo volume indicado pela bomba, o combustível a temperatura mais fria pode conter ligeiramente mais massa e, para a mesma composição, ligeiramente mais energia química do que o mesmo combustível quando em temperatura mais quente”, segue o especialista.
a diferença entre abastecer nas primeiras horas da manhã e no meio de uma tarde quente tende a ser muito menor do que a crença popular sugere
Engin Aykurt
Ou seja, há fundamento técnico por trás da crença. A relação entre temperatura, volume e densidade é, inclusive, considerada pela Resolução ANP nº 894/2022, que estabelece coeficientes de correção, para 20°C, da massa específica e do volume de derivados de petróleo. Isso não significa que uma manhã fria resulte significativamente em combustível mais frio no momento do abastecimento.
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Por que abastecer de manhã não garante vantagem?
A explicação está na forma de armazenamento do combustível. Gasolina, etanol e diesel ficam, em geral, em tanques subterrâneos nos postos. Por isso, não estão expostos diretamente às variações de temperatura percebidas na superfície.
“Em condições usuais, a temperatura ambiente não altera o combustível de forma rápida ou na mesma proporção da variação diária da temperatura do ar”, afirma o professor. “O solo e a massa de combustível armazenada conferem elevada inércia térmica ao sistema, atenuando oscilações rápidas de temperatura”, esclarece.
Temperatura do combustível armazenado não acompanha imediatamente as oscilações atmosféricas
Divulgação/ANP
Assim, uma manhã fria seguida de uma tarde muito quente não necessariamente representa uma mudança atmosférica que produza oscilação equivalente no combustível armazenado. “A temperatura do combustível em um tanque subterrâneo varia lentamente. Portanto, a temperatura do ar observada naquele momento não deve ser usada, de modo isolado, como um indicador da temperatura do combustível armazenado”, acrescenta o especialista.
Partes do sistema mais próximas da superfície, como tubulações e componentes da bomba, podem reagir mais rapidamente às condições externas. Ainda assim, elas representam apenas uma parcela pequena do volume movimentado.
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Densidade do combustível muda na reposição?
Estabelecimentos podem alterar o valor do combustível ao longo do dia, desde que informe o consumidor de maneira clara
Getty Images
Existem situações em que a temperatura da gasolina ou do etanol pode sofrer alterações mais perceptíveis. Uma delas é quando há uma nova carga de combustível. “Nessa situação, a temperatura do combustível recém-entregue pode ser diferente da temperatura do produto já armazenado”, aponta Fábio Raia, professor de Engenharia do Mackenzie. Ainda assim, não há garantia de mudanças perceptíveis no momento de fazer o reabastecimento. Afinal, seria preciso conhecer a temperatura efetiva do combustível que chegou e também a do produto que já estava armazenado.
“Uma eventual vantagem térmica depende de uma diferença real de temperatura do combustível no momento do abastecimento”, afirma. “No uso cotidiano, porém, a economia não é comprovada e tende a ser imperceptível”, completa o especialista.
E se a bomba entregar menos combustível?
É sempre possível fazer testes com os combustíveis nos postos
Murilo Goes/Autoesporte
A influência da temperatura sobre a densidade não deve ser confundida com uma eventual diferença entre o volume registrado pela bomba e aquele efetivamente fornecido. “O fornecedor deve assegurar que a quantidade [de combustível] entregue corresponda àquela indicada ao consumidor”, destaca Tiemy Kunimi, advogada da Bruno Boris Advogados.
Segundo a especialista em Direito do Consumidor, a tolerância metrológica também não significa que o estabelecimento possa deliberadamente fornecer menos combustível. Em caso de suspeita, é possível exigir um teste no local com um recipiente de 20 litros que todo posto precisa oferecer. Kunimi recomenda que o consumidor “acompanhe o teste, verifique se a bomba parte do zero e guarde a nota fiscal do abastecimento” para buscar seus direitos.
Um posto pode mudar preços ao longo do dia?
Postos de gasolina podem alterar o preço do combustível várias vezes durante um mesmo dia
Murilo Goes/Autoesporte
Se escolher um horário para abastecer não faz diferença, outro fator pode pesar bem mais no bolso: mudanças de preço praticadas pelo posto em diferentes horários do dia. De acordo com Tiemy Kunimi, o estabelecimento pode alterar o valor do combustível ao longo do dia, desde que informe o consumidor de maneira clara. “Esta liberdade deve respeitar os direitos previstos no Código de Defesa do Consumidor, especialmente o direito à informação clara sobre o preço e à transparência,” diz.
Tampouco há um limite específico para a quantidade de ajustes de preço em um mesmo dia. “Isso não afasta, todavia, a incidência do Código de Defesa do Consumidor, que assegura que qualquer alteração deve ser comunicada de maneira clara e ostensiva”, acrescenta a advogada.
Afinal, existe um horário melhor para abastecer?
Do ponto de vista prático, não existe um horário do dia que garanta uma economia significativa simplesmente porque a temperatura ambiente está mais baixa. Gasolina e etanol realmente sofrem expansão térmica quando aquecidos. Da mesma forma, um combustível mais frio é mais denso e pode conter ligeiramente mais massa no mesmo volume. A premissa física por trás da crença, portanto, não é falsa. O que não se sustenta é usar a temperatura ambiente para estabelecer um melhor horário para abastecer.
Não existe melhor horário para abastecer
Murilo Goes/Autoesporte
“A diferença entre a temperatura do ar pela manhã e à tarde não se traduz, necessariamente, em diferença semelhante na temperatura do combustível”, reitera Fábio Raia, professor de Engenharia do Mackenzie. Isso porque o armazenamento subterrâneo do combustível reduz drasticamente as oscilações de temperatura ambiente.
A prática, portanto, tende a não trazer vantagem perceptível para seu bolso. No fundo, só vai fazer o motorista perder algumas horas de sono ou descanso à toa, seja no início da manhã, seja à tarde, seja à noite.
Para quem tem carro, faz mais diferença escolher um estabelecimento de confiança, que venda combustível de qualidade, comparar preços entre diferentes postos e acompanhar o consumo do veículo. O efeito da temperatura existe; a ideia de um horário universalmente melhor para abastecer, não.
Na Fórmula 1, combustível frio já fez diferença
Em carros de F1, gasolina com temperatura resfriada pode garantir mais voltas ao ve
Divulgação/F1
Em situações extremas e controladas, a temperatura do combustível pode, sim, interferir em sua massa. Há um episódio famoso da Fórmula 1 que elucida isso. Em 2000, a Ferrari planejava refrigerar seu combustível a cerca de 4°C. Nessa temperatura, a maior densidade faria a mesma massa ocupar aproximadamente 5% menos espaço no tanque, o que permitiria à equipe ter até duas voltas a mais de autonomia entre reabastecimentos. Em uma categoria na qual cada detalhe ajuda a definir o resultado de uma corrida e de um campeonato, a diferença estava longe de ser desprezível.
A FIA vetou a ideia, mas o episódio ajuda a dimensionar que, de fato, a temperatura interfere na densidade do combustível, mas só em casos muito extremos, jamais num ambiente comum e sem controle rigoroso de temperatura, como em um posto.
Combustível Consciente
Editora Globo
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