Como um decreto de JK iniciou a indústria automotiva brasileira há 70 anos


Há 70 anos, foi criado o Grupo Executivo da Indústria Automobilística (Geia), que incentivou a implantação de fábricas de automóveis no Brasil e o desenvolvimento do setor de autopeças local. Era um dos principais pilares do plano de metas do presidente Juscelino Kubitschek, recém-empossado, e sua função era convencer os fabricantes de automóveis a produzir no Brasil obedecendo a uma escala crescente de nacionalização. A contrapartida eram incentivos fiscais — um embrião do que temos hoje.
O país já abrigava algumas marcas desde 1919, ano em que a Ford abriu uma filial na Rua Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo, para a montagem em CKD do Ford T ao ritmo de dois carros por dia (até as caixas de madeira que traziam os carros desmontados eram reaproveitadas no assoalho). O problema é que os carros que circulavam no país, uma frota de 565 mil veículos, sendo 300 mil automóveis, vinham de fora.
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Custavam caro tanto para o comprador quanto para o governo, que não tinha dólares suficientes para arcar com a importação. Segundo o engenheiro e conselheiro do Sindipeças, Bruno Salmeron, entre 1951 e 1952 o país gastou, em valores atuais, mais de R$ 7 bilhões importando veículos. A soma era maior que os gastos com a importação de petróleo ou trigo. Só em 1951, o Brasil importou 100 mil carros. Dois anos depois, a importação de veículos montados foi proibida.
Pioneiros
Juscelino Kubitschek esteve presente na inauguração da Volkswagen, em 1959
Divulgação Volkswagen
A Vemag, sigla para Veículos e Máquinas Agrícolas S.A., foi o primeiro fabricante aprovado pelo Geia. Em 19 de novembro de 1956, lançou a perua DKW Vemag F-91 Universal, derivada do sedã Auto Union F-91 alemão, com 42% de nacionalização em peso (2% a mais que o exigido). Naquele ano, 68 unidades saíram do galpão da Avenida Presidente Wilson, em São Paulo. Uma década depois, o país tinha sete fabricantes e uma frota de 2 milhões de veículos; hoje, são 26 empresas filiadas à Anfavea, a associação dos fabricantes.
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A perua Universal foi o primeiro carro fabricado no Brasil. Mas e o Romi-Isetta? Bem… Este havia sido lançado pelas Indústrias Romi, em Santa Bárbara d’Oeste, meses antes. A produção das primeiras unidades aconteceu há exatos 70 anos, em 30 de junho de 1956, com 100% de nacionalização e sob licença da italiana Iso. Mas não se enquadrou no decreto do Geia, que considerava apenas veículos de quatro rodas e com capacidade mínima de quatro pessoas. No Isetta, cabiam três. Assim, ficou de fora.
Romi-Isetta foi o primeiro carro produzido no Brasil
Renato Durães/Autoesporte
Outros projetos pioneiros de menor prestígio também foram ignorados pelo governo, como o Pinar, o Monarca e o Joagar. O “Pioneiro da Indústria Nacional de Automóveis Reunidas” (Pinar) produziu três protótipos, um dos quais exibidos ao então presidente, Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Era equipado com motor boxer copiado do Fusca. Getúlio viu o carro, um sedã conversível, mas recusou-se a financiar sua produção.
O Monarca era um esportivo, fabricado entre 1954 e 1955, em São Paulo, com desenho de Toni Bianco e Anísio Campos. Apenas dez unidades foram produzidas. Por fim, o Joagar (de Joaquim Garcia, seu criador) surgiu em 1953, em Jaboticabal (SP), e teve nove unidades fabricadas. Seu criador mostrou uma variação picape do projeto para o presidente Juscelino em 1958. JK viu, andou e gostou. Mas não liberou o financiamento.
Pinar, sigla para Pioneiros da Indústria Nacional de Automóveis Reunidos, chegou a ser apresentado ao Presidente da República, mas nunca foi feito em série
Divulgação
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