Como BMW 507 quase faliu a marca e hoje virou um carro raríssimo


Desde 1983, quando comecei a lidar com automóveis, ouço as mesmas perguntas. “Qual foi o carro mais legal que você dirigiu?” é uma das mais frequentes. Não contabilizei, mas nesses mais de 40 anos de estrada devo ter dirigido milhares de carros — e, assim, minhas respostas variavam. Ou decepcionavam: “Você disse Kombi?”.
Mas qual foi o inesquecível? Cheguei a uma conclusão meses atrás: foi o BMW 507 1957, um carro que se recusa a envelhecer mesmo 70 anos depois do lançamento, em 1956.
BMW 507 foi o carro mais legal que Luiz Guerrero já dirigiu na vida
Ilustração: Gustavo Maffei
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Dirigi o 507 no intervalo do lançamento do Compact, em 1984, na Itália. Empenhada em enaltecer sua história, a BMW deslocou de seu museu em Munique (Alemanha) clássicos como o Dixie 1929 (um Austin Seven com logotipo BMW) e o CSL 1973, todos disponíveis para avaliação.
No horário do almoço, pedi para guiar o 507 mais uma vez — e fui liberado para ir sem a companhia de um mecânico. Você já teve a sensação de sair do carro mais leve do que entrou? Foi assim comigo.
Até o Elvis Presley teve um BMW 507 enquanto servia o exército na Alemanha
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O 507 é um roadster de linhas fluidas e sem excessos. Capô longo com as entradas de ar (o duplo-rim da marca) mais elegantes já vistas em um BMW. Não era um carro excepcional: os freios pareciam de borracha, as quatro marchas do câmbio manual eram longas, a suspensão com eixo rígido e barras de torção na traseira exigia cuidado nas curvas e, apesar da cativante sinfonia, o motor V8 não era tão esperto assim. Mas me encantou.
O 507 nasceu da iniciativa do importador de automóveis Max Hoffman. Austríaco radicado nos Estados Unidos, Hoffman convenceu a BMW a fabricar um roadster elegante e luxuoso para ser exportado para a Califórnia, reduto de milionários da indústria cinematográfica. Ele encomendaria mil unidades.
BMW 507 foi um dos carros mais raros da marca com apenas 252 exemplares fabricados
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Hoffman já tinha persuadido a Mercedes-Benz a levar o 300SL para a América, em 1954, e sugerido à Porsche que lançasse o 356 Speedster no mesmo ano, carros que abriram as portas para as duas marcas no mercado norte–americano. A BMW, àquela altura, tinha só três modelos de carros: o BMW Isetta, fabricado sob licença da marca italiana, e os sedãs de luxo 501 e 502. Aceitou a proposta e apresentou o esboço do 503, um cupê.
Hoffman não gostou e confiou o projeto ao designer Albrecht Goertz. Quando o 507 foi apresentado em Nova York, em 1955, causou comoção: choveram pedidos. Mas a BMW não tinha como fabricar em escala industrial um carro de linhas sinuosas esculpidas em alumínio, e entregou a tarefa aos artesãos da Carrocerias Baur, em Stuttgart.
BMW 507 tinha interior minimalista, mas elegante com couro de alta qualidade
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Cada unidade era construída à mão, o que elevou o preço final dos pretendidos US$ 5 mil (US$ 60 mil corrigidos) para o dobro. O 300 SL, vendido a US$ 80 mil, entregava mais desempenho e era mais dramático aos olhos do comprador.
O 507 foi fracasso de vendas. Cansada de perder dinheiro, a BMW encerrou a produção três anos mais tarde, com apenas 252 unidades fabricadas. A marca, que tentava se recuperar das consequências da Segunda Guerra, quase foi à falência: o que a salvou foi a pequena BMW Isetta — outro carro que, a propósito, também consta da minha lista dos mais legais que dirigi.
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