Bomba ‘burra’: golpe em postos de combustível volta a afetar motoristas
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Não é de hoje que encher o tanque do veículo virou um teste de atenção para os motoristas brasileiros. Além do preço elevado do combustível, e irregularidades, como falsificação de gasolina, condutores devem ficar atentos ao que está acontecendo no momento do abastecimento, principalmente com a chamada “bomba burra”.
Meses atrás, Autoesporte noticiou que o esquema de fraudes envolvendo o Primeiro Comando da Capital (PCC) foi desmembrado pela Polícia Federal. A investigação revelou que a facção se infiltrou profundamente no segmento dos combustíveis. A “fraude volumétrica”, mecanismo rentável, descoberto em 2025, que lesou milhares de brasileiros, voltou a aparecer. E vamos ensinar como identificar e de proteger desse crime.
Mostrador de bomba de posto de combustível
Reprodução
Nas redes sociais consumidores relatam que voltaram a perceber irregularidades em postos de gasolinas conhecidos. O golpe da “bomba burra” faz com que consumidores paguem por litros que ultrapassam a capacidade máxima do tanque. Por exemplo, o carro tem 50 litros de capacidade no tanque e ao prestar atenção, a bomba marca 60 litros, ou seja, você vai pagar 10 litros a mais.
O usuário Lucas Faccina compartilhou em suas redes socais um exemplo do caso. No vídeo, foram abastecidos 73 litros de gasolina, com preço de R$ 5,99 por litro. Porém, o carro tem apenas 60 litros de capacidade no tanque, ou seja, foi vítima da fraude.
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Nossa reportagem conversou com Carlo Faccio, diretor executivo do Instituto Combustível Legal (ICL), que revelou que os golpes aplicados pelas facções nos postos vão além da venda clandestina de gasolina e etanol. Veja como funciona a fraude volumétrica.
Como funciona a “bomba burra”
Entenda o mecanismo do crime organizado que pode fraudar a quantidade de combustível que entra no carro
Renato Durães/Autoesporte
A fraude volumétrica nada mais é do que a alteração é aplicada direto na bombanada naa vo nos mostradores, que não condizem com a verdadeira quantidade de combustível que entrou no tanque do carro. “Identificamos inconformidades que chegam a 31% [do volume]”, alerta o diretor. Os aparelhos usados neste golpe são chamados de “bombas chipadas” ou “bombas burras”.
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Elas foram detectadas pelo “cliente misterioso”, que é uma metodologia de pesquisa onde pessoas treinadas avaliam anonimamente a experiência de compra, atendimento, ambiente e processos de uma marca. Neste caso, um carro do ICL vai anonimamente aos postos e faz aferições sobre qualidade e quantidade daquele combustível. Somente em 2025, o Instituto fez mais de 2 mil visitas a postos, gerando 700 denúncias de fraude e adulteração.
O mecanismo do crime é tão avançado que os funcionários podem controlar o acionamento das bombas burras por controle remoto e até aplicativo. Assim, se suspeitarem da fiscalização, podem desativar o software que frauda o valor dos mostradores, que passarão a exibir os números reais.
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Este foi um dos golpes usados pelo PCC para movimentar R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024. Investigações em outras partes do Brasil constataram envolvimento do Comando Vermelho, outra facção criminosa, e até da milícia em postos clandestinos utilizando a mesma tática.
Além de engenhoso, é um golpe difícil de identificar na maior parte das vezes.
Como identificar e como se proteger
Já foi vítima da fraude volumétrica? Saiba como identificá-la
Marcelo Camargo, Agência Brasil
Segundo Faccio, conhecer o volume total do tanque de combustível do veículo é crucial para tentar identificar a fraude. Dessa forma, o motorista terá um método para contestar o frentista caso os valores dos mostradores não batam. E sempre antes de abastecer é fundamental observar a quantidade de combustível no marcado do painel de instrumentos.
Este é o motivo de a fraude volumétrica ser de apenas alguns poucos litros, o que torna o crime difícil de detectar e contestar — apesar de o ICL ter identificado diferenças de mais de 30% entre o mostrador e o volume no tanque, como descreveu o executivo.
Existe uma forma simples para evitar o golpe: pedir o combustível em litros, e não com base no valor. “Em vez de pedir R$ 150 de gasolina, peça 20 litros. É a melhor alternativa”, diz Faccio.
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A razão principal para isso é tentar replicar a forma como a fiscalização procede. Quando vão aos postos, os agentes pedem o combustível por quantidade, não por valor. Logo, assim que o frentista dá o comando na bomba, o sistema pode ser desativado automaticamente, sem levantar suspeita sobre o posto.
De litro em litro, o crime organizado se aproveita dos motoristas para lavar dinheiro e lucrar ainda mais. Em vários casos, o combustível é adulterado e pode prejudicar o funcionamento do motor do veículo, como Autoesporte demonstrou neste outro artigo.
Operação Carbono Oculto
Liderada pela Receita Federal, a Operação Carbono Oculto revelou que o crime organizado já participa de todo o ciclo de produção, distribuição e comercialização de combustíveis no Brasil. Constatou-se que facções ligadas ao PCC já controlam usinas de etanol — onde ocorre a adulteração —, grandes transportadoras, distribuidoras de combustível e também postos espalhados por oito estados.
Além de adulterar a gasolina com mais etanol — muito acima dos 30% permitidos na lei —, a PF descobriu que o PCC voltou a utilizar o metanol, um composto químico corrosivo e tóxico que pode causar danos sérios ao motor de um carro. Já o etanol é adulterado com adição de água à mistura.
O grupo ainda utilizava ao menos 40 fundos de investimento e até fintechs — empresas de serviços financeiros digitais — para lavar dinheiro, ocultar patrimônio e despistar transações milionárias. A investigação deflagrada na última semana mirou as seguintes empresas:
Grupo Aster/Copape: companhia que gerencia usinas, formuladoras, distribuidoras e uma rede de postos de combustíveis;
BK Bank: fintech que facilitou a movimentação de dinheiro ilícito;
Reag: gestora independente de fundos que teriam sido usados para adquirir usinas de etanol e distribuidoras da facção.
A justiça brasileira já expediu 350 mandados de busca e apreensão contra pessoas físicas e jurídicas. A investigação da Polícia Federal quanto ao envolvimento de facções criminosas no setor dos combustíveis continua.
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