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Pirelli lança pneu inteligente que ‘fala com o carro’ e dedura buracos na via

01/08/2026
Pirelli lança pneu inteligente que ‘fala com o carro’ e dedura buracos na via


Desde a invenção do pneu de borracha, há quase 200 anos, este componente tem função passiva em um automóvel. Um recente avanço foi a adoção do eixo traseiro esterçante, melhorando a manobrabilidade em baixas velocidades e a estabilidade em altas. Agora, a Pirelli está fazendo o que pode ser a maior revolução da história dos pneus: com o Cyber Tyre, o pneu com conexão à internet 5G para coletar dados em tempo real e transmiti-los ao veículo.
Tudo isso graças a um pequeno sensor, não maior do que uma moeda de 50 centavos, colado na banda interna de rodagem, cuja bateria tem a mesma duração da vida útil de cada pneu, ou seja, alguns bons anos ou algumas dezenas de milhares de quilômetros rodados.
Informações como temperatura, pressão, desgaste, condições de aderência de cada roda são cruzadas com dados como aceleração longitudinal, transversal e vertical e enviadas via Bluetooth. A captação por parte do veículo é feita por antenas ligadas à central eletrônica (ECU). Com isso, criam-se uma série de oportunidades de melhora na segurança veicular, performance, e até na conservação das vias.
Sensor do Cyber Tyre tem a mesma vida útil dos pneus
Divulgação
Autoesporte foi a única mídia brasileira a viajar para Milão (Itália) e conhecer de perto o Cyber Tyre e, na prática, comprovar os potenciais que a tecnologia tem de trazer benefícios para a segurança de motoristas, passageiros, pedestres e do trânsito em geral.
Estamos falando de situações como uma frenagem de emergência, na qual parar o carro em uma distância mais curta pode representar evitar um atropelamento, por exemplo. Ou, então, fazer com que o veículo consiga escapar de um cenário de aquaplanagem ou de perda de controle como consequência de pista molhada.
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Como o Cyber Tyre funciona
Esses três exemplos puderam ser conferidos na prática no campo de provas da Pirelli em Vizzola Ticino. Todos os veículos utilizados eram protótipos de testes equipados com um sistema que permitia ao engenheiro ativar e desativar a assistência dos pneus Cyber Tyre ao toque de um botão.
Sensores podem enviar informação para o ABS ser aplicado com força adicional
Divulgação
No primeiro teste, dirigi um Mercedes-AMG GT equipado com pneus de inverno da linha P Zero. A escolha “errada” (afinal, estávamos no verão europeu, em um dia com termômetros marcando 37°C) foi proposital para demonstrar como a tecnologia pode interferir até mesmo em parâmetros físicos. Após uma aceleração constante a 110 km/h, realizamos uma frenagem de emergência com força máxima no pedal.
ABS em ação, frenagem relativamente tranquila, mas prolongada pelo pneu com composto claramente inadequado para aquela situação de calor. Na sequência, repetimos o ensaio, mas com o Cyber Tyre em ação. Mesma velocidade, mesma força máxima aplicada no pedal do freio e uma frenagem 5,1 metros mais curta, além de uma sensação de maior controle do veículo.
Com o Cyber Tyre “desligado”, carro atropelou boias após aquaplanagem
Divulgação
No teste seguinte, passamos para o banco do passageiro de um Alfa Romeo Giulia por razões de segurança. Afinal, além de a pista de Vizzola Ticino não ter grandes áreas de escape, estávamos prestes a encarar uma gigantesca poça d’água no ensaio de aquaplanagem a 85 km/h. Nessa condição, uma das mais perigosas que um motorista pode experimentar, os pneus perdem contato com o solo, deslizando sobre uma fina camada de água.
Por melhor que seja o piloto, fica praticamente impossível mudar a trajetória do veículo. E foi exatamente o que aconteceu quando fizemos o trajeto com a tecnologia desligada. Volante para a esquerda, volante para a direita, mas, teimosamente o carro se manteve em linha reta. Se houvesse ali um outro veículo, teríamos batido, como mostra a imagem acima.
Na sequência, após o engenheiro acionar a assistência do Cyber Tyre, refizemos o trajeto, também a 85 km/h. Mesmo com o pedal do acelerador totalmente pressionado, como num passe de mágica, o Alfa Romeo reduziu a velocidade em pelo menos 20 km/h, permitindo ao piloto fazer um desvio à direita e evitar o obstáculo imaginário.
Após informação enviada pelo Pirelli Cyber Tyre, eletrônica reduziu velocidade do veículo
Divulgação
Na última prova, voltamos ao Mercedes-AMG GT, desta vez equipados com pneus semi slick, inadequados para a pista molhada que nos aguardava. Durante o trajeto na estreita pista, se não fosse a habilidade do piloto ao volante, teríamos passado reto em uma das curvas.
A confiança da Pirelli na tecnologia é tanta que, com o Cyber Tyre acionado, pude, eu mesmo, repetir a prova. Ainda perguntei ao engenheiro se podia acelerar com vontade. “Pé no fundo”, disse ele. Sem muita confiança, segui a orientação. O sedã esportivo percorreu o traçado com a obediência de um pastor alemão bem treinado. Não reclamou, não esparramou a curva e, o melhor, não rodou. Missão cumprida.
No teste do controle de tração, Cyber Tyre envia informações que fazem o veículo acionar o freio individualmente para as rodas
Divulgação
“Milagres” contados, agora é preciso dizer quem é o santo. Então vamos explicar como o Cyber Tyre funciona. Com base em todas as informações enviadas pelos sensores, a central eletrônica do veículo é capaz de “entender”, por exemplo, se o composto do pneu é o mais adequado para aquela situação de aderência ou não.
Também consegue identificar, em nanossegundos, e muito antes de um carro com pneu convencional, uma situação de perda de aderência. Assim, atua diretamente no ABS ou nos controles de tração e estabilidade. É exatamente essa diferença na velocidade de resposta, por mais imperceptível que seja aos sentidos humanos, que pode salvar milhares de vidas no trânsito daqui em diante.
Sensor usado nos pneus Pirelli Cyber Tyre é colado na banda interna
Divulgação
Pneu de série na Pagani
“O potencial que há com esse sistema é extraordinário. Não só pela performance, mas sobretudo pela segurança. Espero que essa tecnologia possa ser expandida a carros de uso diário, aumentando a segurança para todos”, disse Horacio Pagani, fundador da marca italiana de supercarros que não só é vizinha da Pirelli em Milão, como também participou do desenvolvimento do Cyber Tyre.
A conversa com Pagani, um ícone da indústria dos supercarros, só foi possível porque o primeiro carro a receber, de fábrica, os pneus Pirelli P Zero com tecnologia Cyber Tyre é o exclusivíssimo Pagani Utopia Roadster, que tem produção limitada a 130 unidades e preço de partida na Europa de 3 milhões de euros (o equivalente a cerca de R$ 17,6 milhões).
Pagani Utopia Roadster é o primeiro carro a sair com os novos Cyber Tyre
Divulgação
A fabricante italiana de pneus confirmou que a Aston Martin será a segunda fabricante a usar os Cyber Tyre de série, embora sem abrir qual será o modelo.
Infelizmente, como quase todas as tecnologias, o início é em veículos caríssimos e nada acessíveis. “Já estamos trabalhando com outras marcas premium. Como toda nova tecnologia, espero uma segmentação, mas haverá uma popularização no futuro”, previu Corrado Rocca, diretor da divisão Cyber da Pirelli.
Uma curiosidade, é que o Cyber Tyre surgiu pensado para uso no automobilismo. “A ideia nasceu para as pistas. Chegamos a fazer testes com protótipos para Fórmula 1 e Fórmula 2, mas descobrimos que a melhor utilização da tecnologia é para as ruas, com segurança”, disse Marco Rocca, chefe de produto e algoritmo da divisão Cyber.
Indicação do pneu Cyber Tyre é um C no ombro do pneu
Divulgação
Mas quem disse que o uso para performance ficou para trás? A “cereja do bolo” da experiência na Itália foi dar uma volta rápida no Pagani Utopia Roadster equipado com o Pirelli Cyber Tyre. Ao volante, o piloto de testes da marca, Matteo Bolondi. Óbvio que eu adoraria estar no assento da esquerda, dirigindo, mas pouco tempo depois entendi que ninguém melhor que o italiano para mostrar do que este carro e seus pneus inteligentes são capazes.
Com a pista molhada e dirigindo como se não houvesse amanhã, pudemos comprovar o controle absurdo que os pneus conferiram ao superesportivo, conhecido exatamente por não permitir “braçadas” de seus motoristas. Afinal, estamos falando de um monstro equipado com motor V12 6.0 biturbo, desenvolvido pela Mercedes-AMG, que entrega 864 cv. Tudo isso em uma carroceria de apenas 1.280 kg.
Pneu Cyber Tyre poderá enviar informações da pista para conservação ou manutenção do asfalto
Divulgação
Melhorando as estradas
A Pirelli ainda apresentou uma outra função para o Cyber Tyre que não está diretamente relacionada aos veículos, mas que também tem potencial de salvar vidas.
Como são capazes de identificar irregularidades do solo, como buracos, trincas e rachaduras, existe a possibilidade de enviar essas informações para concessionárias de rodovias e órgãos públicos que administram as vias. A partir daí, as manutenções podem ser feitas de forma preventiva, e não corretiva.
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Imaginando um cenário ideal, um buraco pode ser identificado (e reparado) muito mais rapidamente. “A ideia não é substituir máquinas que são calibradas diariamente, mas sim prover mais dados. Isso evita gastar dinheiro reparando locais que não precisavam e detectar problemas que não estão visíveis”, afirmou Marco Rocca.
Atualmente, a Pirelli mantém um projeto piloto em parceria com uma empresa que administra estradas na região de Milão. Os italianos também adquiriram empresas de processamento de dados e de visão computadorizada para desenvolver a tecnologia.
Ainda é cedo para dizer se o Cyber Tyre vai transformar a maneira como usamos os pneus. Também será preciso esperar pela popularização da tecnologia para veículos mais acessíveis. A princípio, e com os testes realizados na Itália, estamos diante de uma revolução em um item tão importante em qualquer tipo de veículo.
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