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Lubrificante adulterado é um risco grave para mecânica do seu carro

11/10/2026
Lubrificante adulterado é um risco grave para mecânica do seu carro


Imagine aquele óleo do fim do dia da pastelaria, o sebo que fica na parte de baixo da airfryer ou a gordura que despenca da máquina de frango da padaria. Agora, imagine você molhando um pão nestes restos gastronômicos pouco nobres e devorando-o. Nojento e suas artérias já estão em polvorosa, né? Pois é isso mais ou menos o que acontece com seu carro quando ele recebe lubrificante adulterado.
Na segunda reportagem sobre Mercado Ilegal, vamos tratar de um assunto que consegue ser mais grave do que o combustível irregular, tema da primeira matéria. Da mesma forma que o personagem fictício do começo do texto está a caminho de um infarto certo, usar lubrificante adulterado e falsificado traz riscos sérios e invisíveis à saúde do carro.
“Falamos de óleo com menos aditivação do que ele está previsto, com menor viscosidade, ou óleo já usado, queimado, cheio de impureza, envasado de forma incorreta”, alerta o diretor executivo do Instituto Combustível Legal (ICL), Carlo Faccio.
Adulteração de lubrificante já é uma triste realidade
E esse risco à saúde do carro não é raro de acontecer. O mais recente levantamento da Agência Nacional do Petróleo (ANP) dentro do Programa de Monitoramento de Lubrificantes (PML) analisou 341 amostras de produtos, de 62 empresas, coletadas entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 em 16 estados.
Combustível adulterado: saiba quais são os impactos e como identificar
Desse total, 49 (14,4%), apresentaram ao menos um parâmetro fora de conformidade. O próprio ICL reforça que mais de um em cada 10 lubrificantes comercializados no mercado tem algum tipo de contaminante.
E uma questão peculiar quando se fala de lubrificante do motor adulterado é que os efeitos colaterais podem demorar a surgir.
“Diferentemente do abastecimento com combustível adulterado, onde o consumidor normalmente já percebe os problemas logo após o abastecimento, as consequências pelo uso de lubrificante adulterado pode começar de forma quase invisível”, ressalta Roberta Teixeira diretora da lubrificantes da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA).
As adulterações são diversas, o que mostra a criatividade dos criminosos. Desde produtos sem os aditivos, que são as substâncias que garantem a “linha de frente” na proteção do motor.
Óleo lubrificante é o responsável por reduzir o atrito entre partes móveis do motor
Continental/Divulgação
Falamos especialmente de dispersantes e detergentes que ajudam na limpeza e evitam depósitos, e de antioxidantes, que “seguram” a vida útil do óleo. Detalhe é que nesses índices de inconformidade, há casos em que o lubrificante disponível no mercado sequer têm algum tipo de aditivação.
“Isso resulta em desgaste elevado, deterioração de vedações, maior consumo, redução de potência, encurtamento de vida útil, seja por lubrificar menos ou pela geração de borra nos motores pela ausência de aditivos em quantidade e forma correta”, aponta o engenheiro Renato Passos, especializado em manutenção automotiva.
Sem falar na questão da viscosidade errada. É o índice que determina o quanto o lubrificante é mais “grosso” ou “fino”. O que interfere no quanto ele vai criar de película protetora dentro das partes internas do powertrain, e também na velocidade com que o produto vai percorrer o conjunto.
“Para cada carro eu tenho uma especificação muito rigorosa. A montadora faz muitos testes e a gente, quando desenvolve um óleo, passa por rodadas de testes até poder dizer que aquele lubrificante específico atende aquela norma específica da fabricante”, observa Thiago Veiga, gerente de desenvolvimento de produtos da Vibra, dona da marca Lubrax.
“Então, qualquer falsificação, qualquer alteração, o óleo deixa de atender ao requisito original do carro”, completa o executivo.
Ou seja, o motor que recebe lubrificante com viscosidade diferente daquela para a qual foi projetado vai trabalhar fora da temperatura ideal e o óleo vai demorar mais a percorrer as partes do sistema. Isso resulta em maior atrito entre peças metálicas, altas temperaturas e, consequentemente, desgaste acentuado dos componentes.
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Óleo reaproveitado
Reaproveitamento de óleo usado é mais nocivo que usar lubrificante adulterado
Reprodução/Freepik
Até aqui falamos de adulterações, só que existe uma prática ainda pior e nociva. O reaproveitamento de lubrificantes usados. Isso mesmo que você leu: os criminosos pegam um óleo usado e retirado de um carro, colocam um clarificante para por o produto perto da cor original, envasam em uma embalagem falsificada e vendem como se fosse óleo novo.
Esse rerrefino proibido por lei e criminoso é o chamado óleo lubrificante usado ou contaminado (OLUC). Para o seu carro, é como se você comesse aquele pastel de feira todo dia frito em óleo com três dias de uso.
“O óleo passa por um processo químico onde, visualmente, você vai achar que está tudo ok. Mas a parte química dele não tem nenhuma propriedade de defesa do motor. Então é a morte lenta, porque ele faz um papel como se fosse um azeite no carro, e não um papel de lubrificação”, explica Carlo, do ICL.
“Esse produto vem totalmente contaminado, já com borra, com resíduos de oxidação, metais de desgaste, água e até mesmo combustível”, conta Roberta Teixeira.
Motores modernos sofrem ainda mais
As consequências são desastrosas. Ainda mais se falarmos de carros com conjuntos mais modernos, com turbo, injeção direta, comando variável – e catalisadores e sistemas pós-tratamento mais sofisticados.
É ideal usar sempre o óleo lubrificante recomendado pela fabricante do veículo
Divulgação/Pexels
Tanto que grande parte dos lubrificantes mais recentes, justamente para essa nova geração de motores, são os chamados Low Saps. É a sigla em inglês para “Low Sulphated Ash, Phosphorus and Sulphur”, ou seja, produtos formulados com baixo teor de cinzas sulfatadas, fósforo e enxofre.
“Eu costumo dizer que o mau uso do lubrificante tem um tempo muito mais curto de impacto do que no passado. Hoje, às vezes, numa segunda troca, você já consegue observar danos para o motor”, acredita Fernanda Ribeiro, gerente de produtos da Iconic , das marcas Ipiranga e Texaco.
“Motores mais modernos trabalham com margens de tolerância menores. Eles são mais dependentes da especificação correta do lubrificante porque, quando a gente fala de toda essa tecnologia embarcada, ela é mais demandante de lubrificantes de maior performance”, pontua Roberta. da AEA.
Segundo a executiva, no caso do pós-tratamento, esse óleo de segunda mão pode trazer restos de partículas metálicas. Estas partículas vão causar danos nos catalisadores, gerar cinzas e obstruir os sistemas de pós-tratamento
Além disso, também podem afetar os componentes de alta precisão dos sistemas de injeção, que são os injetores e as bombas de alta pressão. No caso da injeção direta, inclusive, trata-se de um sistema que tem alta exigência no controle de depósitos.
Luz de injeção acesa pode indicar problema com o óleo do veículo
Divulgação
Já as turbinas trabalham com temperaturas e rotações muito elevadas. Nestes casos, a viscosidade, a estabilidade, a oxidação e a resistência à formação de depósitos são ainda mais dependentes da correta formulação do lubrificante. O comando variável, por sua vez, utiliza justamente a pressão e o fluxo do óleo para controlar o sincronismo da abertura e fechamento das válvulas.
“Isso pode prejudicar o funcionamento dos atuadores, que também podem ter falha prematura pela diferença de viscosidade e pela contaminação no óleo”, explica o engenheiro Renato Passos.
Apesar dos efeitos do lubrificante adulterado ser sentido mais “depressa” em motores mais modernos, o início da degradação é invisível como todos os especialistas falam – o que vale para propulsores mais antigos também.
“O motor pode continuar funcionando normalmente enquanto o desgaste dos componentes aumenta”, alerta Everton Lopes, mentor de energia a combustão da SAE Brasil.
“Eles vão afetar pistões, anéis de segmento, bronzinas, eixo comando de válvula, que são os componentes que têm mais exigência de um lubrificante adequado. Mas pode levar até ao extremo, como o travamento de uma válvula, o cilindro vai bater e causará uma quebra catastrófica do motor”, diz Thiago, da Vibra.
Fique de olho
O consumidor, porém, pode se proteger. Primeiramente, desconfie de preços de lubrificantes conhecidos muito abaixo do mercado, especialmente em marketplaces.
“O lubrificante é um produto totalmente engenheirado, com muita tecnologia embarcada, então não é esperado ver preços totalmente discrepantes do mesmo produto, mesma marca, em um ponto diferente de venda, por mais que existam promoções”, diz Thiago Veiga.
Além disso, fique de olho na embalagem, mesmo de marcas famosas. Como dito, os bandidos criam empresas de fundo de quintal e falsificam tudo. Se observar algum aspecto fora do padrão, no rótulo ou até no selo de vedação do bocal da embalagem, desconfie.
Na hora de comprar um lubrificante, é importante conferir as embalagens, validade e lote
Jeffrey Greenberg/Getty Images
Por exemplo, verifique se há falhas nas informações, especialmente números de validade e lote. Olhe também o fundo dos frascos de plástico, se há sinais de rebarbas ou formas muito grossas, o que pode indicar produto mal envasado e embalagem reaproveitada.
Muitas produtoras de lubrificantes rastreiam a sua produção e dispõem de telefones de atendimento ao cliente que, de posse de dados da embalagem, podem ajudar a conferir a procedência daquele óleo.
E observe também a marca que você usa. Tem muitas “produtoras” de óleo que sequer são registradas na ANP. Em outras palavras: se não tem o selinho da agência reguladora, nem use e faça uma denúncia à própria entidade (veja ao fim da reportagem).
Além disso, a orientação é dar preferência a postos e pontos de troca de óleo de marcas conhecidas ou a oficinas de confiança. E sempre acompanhar de perto o processo de substituição do lubrificante.
“É muito importante que o consumidor não olhe só o preço, mas muito a reputação da loja onde ele vai adquirir esse lubrificante”, sugere Fernanda, da Iconic.
Além disso, fique atento a sinais que o carro dá. Aumento no consumo de óleo e de combustível, fumaça branca saindo do escapamento, perda de potência e de eficiência do motor podem ser sinais de lubrificante adulterado.
Fluidos podem fundir a cabeça do cliente… e do motor
Líquido de arrefecimento do carro também pode ser alvo de adulteração
Divulgação
Além de lubrificante, outros fluidos importantes para o funcionamento correto do automóvel são cada vez mais alvos de adulteração. Um dos mais falsificados hoje em dia é o fluido de arrefecimento.
O produto trabalha direto no sistema de resfriamento do motor. Ou seja, qualquer alteração em sua composição vai alterar o ponto de ebulição do conjunto. Mas essas adulterações causam outros problemas.
De acordo com Roberta Teixeira, da AEA, fluidos adulterados podem conter concentrações inadequadas de etilenoglicol (principal substância na sua formulação), pacote de aditivos incompatíveis (ou nenhum aditivo) e usar água de origem duvidosa – a água tem de ser desmineralizada, mas há casos de produtos com água da bica.
“Isso pode ocasionar, além do superaquecimento do motor, evoluir para danos severos, como empenamento do cabeçote, em casos extremos até danos ao próprio motor, e ainda pode ocasionar ataque aos elastômeros, nas vedações dos plásticos”, explica a engenheira.
Formação de depósitos e incrustações que reduzem a eficiência na transferência de calor, corrosão dos componentes metálicos, bomba d’água, radiadores e canais internos do motor também são outras consequências de fluido de arrefecimento irregular.
O óleo da transmissão é outro tipo comum de adulteração que preocupa a indústria como um todo. Nos câmbios automáticos convencionais, a mesma regra: falta de aditivos, produtos com depósitos e impurezas ou fora das especificações.
Tais adulterações podem gerar superaquecimento do sistema de transmissão e desgaste prematuro de engrenagens e discos, já que vão operar em temperaturas mais altas e haverá um maior atrito das peças. Também podem ocorrer ressecamento de retentores e juntas.
“Quando o assunto é câmbio automático, em que o óleo exerce trabalho além de lubrificar, é catástrofe na certa: dentro de pouco tempo o câmbio ficaria inutilizado”, afirma o engenheiro Renato Passos.
Principais consequências de uso do óleo falsificado e de OLUC
aumento do desgaste de pistões, anéis, camisas, mancais e comando de válvulas
formação de borras, vernizes e depósitos
perda de capacidade de proteção contra desgaste
oxidação e degradação acelerada do óleo
problemas de lubrificação em regiões críticas do motor
aumento do consumo de óleo
possibilidade de travamento ou danos severos em situações extremas
Como se prevenir
Desconfie de preços muito abaixo do mercado
Dê preferência a pontos de troca oficiais das marcas ou a uma oficina de sua confiança
Veja se a embalagem do lubrificante apresenta sinais de adulteração
Confira se o fundo do frasco apresenta rebarbas grossas ou formas irregulares fora do padrão
Verifique se o número do lote, data de fabricação e validade estão nítidos
Observe se o lacre do bocal está bem vedado
Veja se no rótulo do produto consta o selo da ANP
Acompanhe de perto da troca de óleo
Denuncie
ANP – 0800 970 0267 ou www.anp.gov.br
ICL – institutocombustivellegal.org.br
O projeto Mercado Ilegal é uma realização dos jornais O GLOBO, Valor Econômico e Extra e da rádio CBN, com patrocínio da Philip Morris Brasil, do Instituto Combustível Legal, do Mercado Livre e da BAT Brasil, e apoio da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Associação Brasileira de Bebidas Destiladas (ABBD) e Aegea.
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