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Inflação dos anos 1990 fazia lojas darem carro de graça em promoções

02/08/2026
Inflação dos anos 1990 fazia lojas darem carro de graça em promoções


Certamente você já se deparou no supermercado com aquela tentadora promoção “pague 1, leve 2”. E se uma oferta dessas fosse em uma loja de carros? Parece inacreditável, mas isso já aconteceu. E foi no Brasil, em abril de 1990: era só entrar na revenda para comprar um veículo e sair de lá com dois, sem sorteio nem nada.
Tudo começou um pouco antes, em março daquele ano. Fernando Collor, que venceu a eleição para presidente da República em 1989, fez um acordo com o governo Sarney, que estava de saída, e instituiu feriado bancário nos dias 14, 15 e 16. No dia 15 ele assumiu o governo e, logo depois, anunciou um plano econômico para tentar acabar com a hiperinflação da época.
Chamado oficialmente de Plano Brasil Novo, o apelidado Plano Collor colocou em prática uma ação radical: levar a quase zero a circulação de dinheiro e depois liberar a economia aos poucos, mantendo os preços congelados. Assim, todo o montante que havia nos bancos ficou aprisionado — podiam ser movimentados somente 50 mil cruzeiros (moeda que substituiu o cruzado novo na ocasião), ou algo perto de R$ 15 mil em valores atuais.
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Obviamente, toda a economia parou, inclusive as vendas de carros. Nas duas primeiras semanas após a divulgação do plano, o movimento nas revendas foi praticamente zero — simplesmente porque ninguém tinha dinheiro para quase nada, que dirá para comprar um veículo novo.
Promoções quase inacreditáveis tomaram as concessionárias brasileiras de veículos em abril de 1990, logo após o Plano Collor
Ilustração: Gustavo Maffei
Ainda mais do que vender, as concessionárias precisavam do dinheiro dos clientes para fazer algum fluxo de caixa, em nome da própria sobrevivência. No começo foram oferecidos gordos descontos, de até 25%, mas nenhum comprador apareceu — lembrando que, na época, ninguém tinha dinheiro “embaixo do colchão”, pois a hiperinflação comeria os valores rapidamente.
Chegou abril e o desespero bateu: era preciso comercializar os carros parados nas lojas de alguma forma, urgentemente. O mais interessante é que o cenário variava entre um pequeno caos e a tragédia absoluta, dependendo da situação financeira de cada revenda. A estratégia adotada foi a de “salve-se quem puder”, com ofertas próprias em cada concessionária.
Em 1990, lojas faziam o possível para levar os clientes para o showroom
Reprodução/Acervo Miau
Partiu-se para parcelamento de 50% do valor do carro em 4, 5, 6 ou até 10 vezes sem juros, aposta arriscadíssima, uma vez que ninguém sabia se a inflação estaria de fato controlada dali para a frente. As vendas melhoraram, mas pouco. Saíram só os carros mais baratos.
Para atrair mais clientes, tentou–se de tudo. A rede Ford Paulivel dava 100 raspadinhas da loteria para o comprador de um 0 km lidar com a própria sorte. Na Volkswagen Caraigá, quem comprasse um Santana Executivo levava duas passagens para o Texas (Estados Unidos), chapéu e bota de cowboy, lava-louças e churrasqueira elétrica; se fosse um Gol GTI, uma semana com tudo pago em São Francisco ou Nova York; para um Gol GTS, um mini-buggy; Voyage Plus a álcool, um Walk Machine.
Na concorrente Vecap, um GTS ou Santana e uma Quantum Sport rendiam estadia de 15 dias no Canadá e nos EUA; o Voyage Plus, uma TV com videocassete.
Santana Quantum e Monza eram vendidos com descontos e juntos de generosos brindes
Autoesporte/Acervo MIAU
Na Chevrolet Deltacar, quem comprasse um Chevette 0 km ganhava uma viagem de três dias ao Paraguai; um Monza Classic ou Diplomata, seis dias em Nova York; e uma Brasinca Andaluz, 12 dias em Paris.
Ainda assim, a resposta não foi suficiente, e na segunda quinzena de abril aconteceu, então, o inacreditável. Entrou em cena o “pague 1, leve 2” — os jornais ficaram forrados de propagandas hoje dignas de espanto.
Gol GTS virou brinde na compra de um caminhão Volkswagen
Divulgação/Volkswagen
Na Ford Santo Amaro, quem comprasse um caminhão Cargo ganhava uma Pampa 1.8; um Escort XR3 conversível vinha com uma moto Honda 250, e o Del Rey Ghia, com uma Honda 125. Na VW Abolição, quem adquirisse um caminhão VW 16.210 ou 14.210 ganhava um Gol GTS. Na Mesbla Motos, o comprador de uma CBX 750 Indy levava junto uma CBR 450 SR; na SP Moto, o prêmio era uma VW Saveiro grátis.
As ofertas “compre 1, leve 2”, porém, terminaram já no começo de maio. Os pátios esvaziaram e, além de o governo liberar vendas por consórcios contemplados e outros meios, os lojistas perceberam que muita gente estava comprando carro 0 km para substituir aplicações financeiras, que passaram a render muito pouco e ainda foram taxadas.
Quem teve a chance, aproveitou; quem não, sonha com outra oportunidade dessas até hoje.
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Fonte: Read More 

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