Carros conectados vão revolucionar a manutenção e até evitar guinchos


Quando se fala em carro conectado, é fácil pensar primeiro na central multimídia, no aplicativo ou em um comando de voz. Mas a conectividade começa a mudar algo muito maior: a própria forma como o carro funciona, evolui e até se mantém seguro ao longo da vida.
Um estudo da consultoria Omdia ajuda a dimensionar essa transformação. Em 2025, havia cerca de 474 milhões de veículos conectados no mundo. A projeção é de que esse número supere 1 bilhão em 2035, justamente em um momento em que a indústria avança em veículos definidos por software, inteligência artificial, atualizações remotas e sistemas cada vez mais sofisticados de assistência ao motorista.
Estudo diz que, em 2035, mais de 1 bilhão de veículos no mundo serão conectados
Renato Durães/Autoesporte
Esse foi um dos temas discutidos durante o Summit Futuro da Mobilidade 2026, organizado por Autoesporte e Valor Econômico, no painel “Conectividade em alta: as soluções em desenvolvimento para deixar o carro mais inteligente e seguro”. Participaram da conversa Márcio Filho, diretor de Customer Support do BMW Group Brasil; Luciano Driemeier, gerente global de Negócios Conectados da Ford; e Durval Pinheiro Jr., diretor do Senai Automobilística.
Diagnóstico remoto já evita guincho
No caso da BMW, um dos impactos mais concretos aparece na assistência 24 horas. Segundo Márcio Filho, o uso do diagnóstico remoto permitiu à fabricante reduzir em 60% o envio de plataformas para atender veículos.
“Nossa assistência 24 horas conseguiu reduzir em cerca de 60% o envio de plataforma utilizando o diagnóstico remoto. Muitos desses problemas ou alertas, em uma situação onde nós não tivéssemos essa capacidade, exigiram uma plataforma para evitar um possível risco. Mas agora, é possível fazer um diagnóstico mais preciso mantendo a segurança, que pra nós é super relevante”, afirmou.
Isso porque sistemas conectados permitem que a fabricante também ofereça suporte após um acidente, entre em contato com os ocupantes e, quando necessário, acione serviços como ambulância, polícia ou bombeiros.
3° Summit Futuro da Mobilidade 2026 debateu sobre conectividade, software e segurança
Ícaro Cerqueira/RN Imagem
A lógica é possível porque os carros conectados conseguem transmitir informações sobre seu funcionamento antes mesmo de chegar a uma concessionária. Com isso, a fabricante ou a assistência pode entender melhor o tipo de falha e avaliar qual atendimento é realmente necessário. Na prática, isso torna a manutenção mais assertiva.
O próprio pós-venda também passa por uma transformação: deixa de ser restrito às visitas à concessionária e passa a acompanhar o veículo de forma mais contínua ao longo de sua vida útil.
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Painel do novo BMW iX3 mostra como a conectividade começa a mudar a interação entre carro e motorista
Divulgação
Esse tipo de recurso já aparece em outros carros vendidos no Brasil. Sistemas como o myHonda Connect, da Honda, e o Bluelink, da Hyundai, permitem consultar informações sobre o funcionamento do veículo à distância e oferecem recursos de assistência conectada. No caso da Honda, há inclusive detecção remota de falhas e diagnóstico pelo aplicativo.
E mais do que facilitar o atendimento depois que algo dá errado, porém, a conectividade abre espaço para uma mudança maior: o carro pode começar a identificar indícios de problemas antes que eles se transformem em uma falha perceptível para o motorista. Segundo Luciano Driemeier, a quantidade de dados produzida pelos veículos conectados permite que sistemas de inteligência artificial acompanhem seu funcionamento em uma escala impossível de ser analisada manualmente.
“Cada vez que eu ligo e desligo um carro Ford, esses dados sobem para a nuvem. Não existiria um exército de seres humanos que conseguisse olhar essa quantidade de dados. Tem inteligência artificial olhando para esses dados e entendendo coisas que não são legais”, disse Luciano.
BMW reduziu em até 60% o envio de plataformas, mantendo o suporte ao cliente
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Carro continua mudando depois que sai da fábrica
Outra consequência da conectividade é que o veículo deixa de ser um produto praticamente imutável depois de vendido. Atualizações remotas, conhecidas pela sigla OTA — de over the air — permitem modificar softwares e funções sem que o proprietário precise levar o carro até uma oficina.
A atual geração da Ford Ranger já foi desenvolvida com uma arquitetura elétrica voltada a recursos de conectividade e serviços digitais. Segundo Driemeier, mais de 1 milhão de atualizações remotas já foram enviadas para unidades da picape. “Não é papo de futuro, isso já é realidade”, afirmou.
As mudanças feitas à distância não precisam se limitar à correção de falhas. Segundo o executivo, a marca norte-americana já utilizou atualizações para modificar a aparência e funções da central multimídia, por exemplo. Ao mesmo tempo, o software amplia a capacidade do próprio veículo de informar o que está acontecendo com seus sistemas.
Atualizações OTA permitem à Ford modificar funções da Ranger sem passagem pela oficina
Divulgação
“Muitas dessas atualizações trazem para o carro uma capacidade de entender melhor a si mesmo, de se autodiagnosticar e contar isso para a engenharia, para a engenharia de campo e para o reparador”, explicou Driemeier.
Isso também muda a relação entre fabricante e consumidor. Em vez de concentrar o contato na compra, nas revisões e em eventuais reparos, o carro conectado cria um canal permanente entre veículo, montadora e proprietário durante boa parte de sua vida útil.
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Mais conectividade, mais profissionalização
Se a forma de diagnosticar e atualizar os veículos está mudando, quem trabalha na manutenção também precisará acompanhar essa transformação. A eletrificação já vinha exigindo cuidados e formação específicos de oficinas e profissionais, sobretudo pela presença de sistemas de alta tensão. Com a conectividade e o crescimento dos veículos definidos por software, uma nova camada entra nessa equação.
Crescimento de softwares vai exigir mais profissionalizaçã
Renato Durães/Autoesporte
Para Durval Pinheiro Jr., do Senai, o reparo de um carro hiperconectado não poderá mais ser encarado apenas como a substituição de componentes mecânicos.
“Esse carro hiperconectado não é simplesmente trocar uma peça física. No momento em que se trocar aquela peça, tem que ver se ela está atualizada para aquele software que está carregado no carro. É mais ou menos como a gente faz com nossos PCs e smartphones”, afirmou Pinheiro Jr.
3° Summit Futuro da Mobilidade também debateu sobre a importância de capacitar novas pessoas
Ícaro Cerqueira/RN Imagem
Segundo o executivo, o Senai já trabalha diretamente com a indústria para adaptar a formação de engenheiros e técnicos às novas necessidades. “O mecânico do futuro é o mecânico que vai conhecer peça, vai conhecer eletrônica e software. É um desafio, mas a gente prefere olhar pelo lado do copo cheio: é uma oportunidade”, disse.
A transformação também pode representar uma oportunidade para a engenharia nacional. Para Durval, desenvolver localmente essas tecnologias permite ao Brasil deixar de atuar apenas na adaptação de soluções concebidas no exterior. O país, inclusive, já tem iniciativas nesse sentido. O Senai Pernambuco, por exemplo, lidera um projeto de R$ 44 milhões para o desenvolvimento nacional de um sensor de radar voltado a sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS).
No fim, a conectividade começa a alterar praticamente toda a vida do automóvel. O carro pode sair da fábrica e continuar recebendo novas funções, identificar problemas antes de chegar à oficina e fornecer ao reparador informações que antes só apareceriam durante uma inspeção física. E, quanto mais software, sensores e dados entram nessa equação, menos a manutenção dependerá apenas daquilo que é possível enxergar sob o capô.
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