Volvo EX30: donos apontam dificuldade para realizar recall da bateria


Em janeiro de 2026, a Volvo iniciou uma campanha de recall para unidades do EX30 produzidas entre 6 de setembro de 2024 e 25 de outubro de 2025. Embora exista o risco de incêndio por conta de uma falha na bateria — e o próprio CEO da marca pedir que os donos só carreguem o carro a até 70% —, proprietários relatam que encontram dificuldades para atender à campanha.
A Volvo identificou uma falha na produção das células da bateria de alta tensão que equipa o EX30. O erro pode causar um curto-circuito no interior dos módulos. Além disso, o superaquecimento do componente pode acarretar em risco de incêndio, o que pode ser fatal.
Volvo EX30 pegou fogo no Rio de Janeiro; suspeita é de falha na bateria, que está em recall
Reprodução
Clientes encontram dificuldades com o recall
O pedido de recall feito pela Volvo não agradou aos donos do modelo. Um exemplo disso é Maria Regina, que reside em Minas Gerais. Segundo a proprietária, os motivos que levaram à compra do EX30, como segurança e autonomia, foram comprometidos.
“Escolhi a Volvo primeiramente pela segurança. Moro no interior e preciso viajar semanalmente. Essa fama de ser um carro seguro caiu por terra. Em março, fui comunicada que a troca de peças aconteceria no mês de julho — mas, até então, nada foi resolvido. Estou há muito tempo com um carro que está em risco e não comprei pensando em usar apenas 70% da sua bateria. Quando escolhermos um veículo elétrico, uma das premissas é a previsibilidade para deixarmos energia extra em casos de emergência […].”, relatou.
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Paula Castro é outra cliente insatisfeita com a situação. Segundo a proprietária do EX30, o limite de carga tem grande impacto em seu cotidiano. Além disso, afirma que autonomia foi um diferencial na escolha contra concorrentes elétricos:
Donos do Volvo EX30, como a motorista Paula Castro, encontram dificuldades para abordar a marca
Reprodução/Paula Castro
Optei pelo EX30 em vez do BYD Dolphin justamente pela maior autonomia oferecida pelo Volvo. Essa limitação tem causado um impacto significativo no meu uso do veículo, pois contava com a autonomia de aproximadamente 350 a 400 km para realizar deslocamentos frequentes para outra cidade. Assim, estou há meses com um veículo cuja principal característica que motivou minha compra — a autonomia — encontra-se significativamente comprometida, sem que a Volvo apresente um prazo claro para a solução definitiva.”, relatou.
O defeito da bateria não é o único tópico que intriga os proprietários do EX30. A falta de retorno da marca faz parte das principais reclamações, como nos revelou o cliente Henrique Gargantini:
“Desde que o recall foi anunciado, em fevereiro, estou tentando marcar a troca da bateria, sem nenhum tipo de sucesso. Os canais disponibilizados foram uma caixa de e-mail, que, após o envio, volta dizendo que não chegou, ou um telefone que apenas toca. Ou seja, canais ineficazes. Tentei também o Reclame Aqui, em que a Volvo respondeu: “Estamos aguardando as peças para iniciar as trocas”. Fui ainda a uma concessionária. Lá, eles alegam que os agendamentos só podem ser feitos nos canais de telefone e e-mail. Para uma marca premium, que se diferencia pelo serviço e segurança, tem deixado bastante a desejar”, declarou Henrique.
Diego Juc é mais um cliente que ainda aguarda por uma definição do caso. Neste caso, o proprietário acionou a justiça para tentar uma solução:
“Inúmeros contatos foram feitos por mim com o SAC, via WhatsApp e e-mail. Quando não sou ignorado, recebo respostas automáticas que só aumentam a indignação com o caso. Já entramos no 9º mês do aviso do recall e até agora nada. Judicialmente, entrei com uma ação na justiça e consegui uma liminar de carro reserva.”, alegou.
Outros clientes receberam devolutivas, mas não conseguiram alcançar um desfecho para o problema até o momento. É o que relata André Balduíno, proprietário do EX30 desde agosto de 2025. A marca segue pecando nos agendamentos:
“Mesmo recebendo comunicações da própria Volvo solicitando que eu procurasse uma concessionária para agendar o recall, ao entrar em contato com a fabricante ,fui informado de que não havia previsão disponível para a realização do serviço, tornando impossível efetuar o agendamento da maneira indicada. Em agosto, após nova cobrança, o SAC da Volvo reconheceu que havia alta demanda e problemas logísticos que impedem a conclusão dos recalls pendentes. A situação permaneceu contraditória: de um lado, a marca continuava determinando que o veículo não fosse carregado acima de 70% e orientava o cliente a agendar o reparo; de outro, não havia disponibilidade efetiva para esse agendamento.”, comentou.
Em entrevista ao CBN Autoesporte, Luis Rezende, presidente da Volvo para as Américas, pediu que os donos do EX30 não carreguem o veículo além de 70% da capacidade da bateria, devido à possibilidade de acidentes, como o incidente no Rio de Janeiro.
No Reino Unido, a marca chegou a pedir para que os carros não fossem carregados em locais fechados e sem supervisão. Ao todo, mais de 40 mil carros foram afetados em todo mercado global, sendo 5,6 mil dessas unidades vendidas no Brasil.
Procurada por Autoesporte, a Volvo enviou a seguinte nota. Confira na íntegra ao fim da reportagem:
“Estamos trabalhando para realizar as inspeções e trocas necessárias de componentes, de todos os clientes afetados pelo recall. Dependemos da disponibilidade e chegada de peças no Brasil, para a conclusão do procedimento em todos os carros afetados. Devido a uma questão de logística global no envio das baterias para a efetivação da troca nos veículos incluídos no escopo do recall, tivemos que pausar os agendamentos realizados. Assim que tivermos os componentes disponíveis em nossas oficinas, iremos retomar os agendamentos via concessionária. “.
A fabricante reforçou a recomendação de que os motoristas carreguem o veículo apenas até 70% da capacidade máxima de baterio para que incidentes sejam evitados
O que pode ser feito judicialmente?
Chamado de recall do Volvo EX30 foi iniciado no Brasil em fevereiro deste ano
Divulgação
Para lidar com a falta de retorno e a indisponibilidade de peças, medidas judiciais podem ser tomadas. Para entender o que pode ser feito, Autoesporte conversou com o advogado Gabriel Gulin, responsável por processos relacionados ao Volvo EX30.
Segundo o procurador, além das falhas técnicas apresentadas pelo modelo, a forma como a fabricante lida com seus clientes, com longos prazos de espera, também pode ser encaixada como uma das principais motivações:
“A motivação central das ações judiciais não é apenas técnica: é o descaso da Volvo com os próprios consumidores. Em janeiro, a marca comunicou um recall que reduziria o risco de o problema ocorrer e foi imposta a limitação do carregamento a 70% da capacidade da bateria. A solução definitiva, contudo, só foi efetivamente anunciada ao final de março, ultrapassando o prazo de 30 dias que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) concede ao fornecedor para sanar o vício a partir da reclamação (art. 18).
O problema não ficou restrito a esse período inicial: até o momento, diversos consumidores relatam dificuldade para agendar o recall e efetuar a troca da bateria e, quando conseguem uma data, ela costuma superar o mês de novembro.”, explicou.
Gulin explica que os donos do Volvo EX30 que sofrem com estes problemas podem dar início às seguintes reivindicações:
Cumprimento do recall e reparo definitivo: O fornecedor deve prestar informações claras, realizar o atendimento dentro de prazo razoável e efetivamente solucionar o problema apontado;
Veículo reserva de padrão equivalente: Quando o defeito compromete a segurança, a autonomia ou o uso regular do veículo, cabe pedido de tutela de urgência para fornecimento de automóvel substituto de padrão igual ou similar ao original, e não qualquer veículo disponível;
Rescisão do contrato e restituição do valor pago: Esgotado o prazo de 30 dias sem solução do vício, a escolha entre substituição do produto, restituição imediata do valor pago ou abatimento proporcional do preço passa a ser do consumidor, e não do fornecedor;
Danos materiais e morais: Podem ser discutidos gastos comprovados, como despesas de transporte e locação de veículo substituto, além de outros prejuízos diretamente relacionados ao problema. O dano moral não é presumido automaticamente em toda reclamação envolvendo recall; a análise considera a gravidade do risco, o tempo de privação do uso, a demora na solução e a frustração legítima do consumidor diante do descaso;
Responsabilidade solidária entre fabricante e concessionária: O CDC permite responsabilizar todos os elos da cadeia de fornecimento, a depender da participação de cada empresa e dos pedidos formulados em cada ação.
O advogado afirma que “já foram obtidas vitórias relevantes, embora ainda sem sentença definitiva de mérito em nenhum deles até o momento.”. Ele entende ainda que os casos sob sua tutela estão em fase final:
“Processos, de modo geral, caminham para a fase final, de especificação de provas e prolação de sentença. Mas ainda cabe recurso após seu proferimento, de modo que nenhum desfecho pode ser considerado definitivo neste momento. ”, completou.
Confira a nota oficial da Volvo
“A Volvo Cars iniciou o reparo dos veículos afetados pelo problema de superaquecimento da bateria que afeta determinados modelos EX30 Single Motor Extended Range E60, anos-modelo 2024 e 2025 – no caso do mercado brasileiro, para os quais emitiu um aviso de segurança aos clientes afetados em dezembro do ano passado.
Nossas investigações identificaram que, em casos muito raros, a bateria dos veículos afetados pode superaquecer quando carregada até um nível elevado. No pior cenário, isso pode levar ao início de um incêndio na bateria.
Desde então, estamos trabalhando para realizar as inspeções e trocas necessárias de componentes, de todos os clientes afetados pelo recall. Mas dependemos da disponibilidade e chegada de peças no Brasil, para a conclusão do procedimento em todos os carros afetados.
Devido à uma questão de logística global no envio das baterias para a efetivação da troca nos veículos incluídos no escopo do recall, tivemos que pausar os agendamentos realizados e assim que tivermos os componentes disponíveis em nossas oficinas, iremos retomar os agendamentos via concessionária. Enquanto isso, para mitigar o risco à segurança, continuamos solicitando que todos os proprietários dos veículos afetados limitem o nível máximo de carga de seus veículos a 70% até que os módulos da bateria sejam inspecionados e substituídos.”
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