Fiat 50 anos: dirigimos os carros mais importantes da marca no Brasil


Cinquenta anos atrás, precisamente no dia 9 de julho de 1976, o primeiro 147 desfilou pelos corredores da recém-inaugurada fábrica da Fiat em Betim (MG). De lá para cá, mais de 18 milhões de veículos fizeram o mesmo percurso — recorde absoluto para uma única planta brasileira. Autoesporte já contou essa história em outra reportagem, onde mostramos como a produção da marca no país evoluiu ao longo de cinco décadas.
No entanto, não poderíamos deixar os maiores personagens desta trajetória de fora: os clássicos nacionais. Neste especial sobre o meio século da Fiat no Brasil, tivemos a oportunidade de conhecer — e dirigir — vários modelos que marcaram época. Nosso objetivo é contar a história do universo automotivo brasileiro de 1976 a 2026 utilizando o pretexto destes veículos lendários. Aperte o play e embarque nesta viagem ao passado:
Fiat 147: nasce o carro popular a álcool
Fiat 147 foi o primeiro carro da marca italiana no Brasil
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Baseado no 127 italiano, o Fiat 147 foi o primeiro carro da marca italiana para o Brasil, lançado com a proposta de um “citycar” europeu. Em outras palavras, era compacto, econômico e barato — o famoso carro do trabalhador. Num segmento dominado por Corcel, Brasília e Chevette, os italianos tinham uma carta na manga.
Anos antes, em 1973, iniciou-se uma guerra no Oriente Médio que culminaria no embargo da exportação de petróleo. O preço da gasolina subiu em todo o mundo, o que praticamente obrigou o desenvolvimento de veículos mais econômicos. Não precisamos nos estender na história do ProÁlcool, pois dedicamos uma reportagem inteira ao assunto (clique aqui para conferir).
Projeto do Fiat 147 nasceu num tempo que exigia carros menores e mais econômicos
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Resumidamente, foi um período em que montadoras de veículos, governo e acadêmicos buscaram uma matriz energética barata, limpa e menos vulnerável às variações internacionais, aproveitando uma matéria-prima abundante em nosso país: a cana-de-açúcar. A Fiat largou na frente ao lançar o 147 “Cachacinha” em 1979.
O hatch mineiro foi o primeiro a oferecer o motor transversal entre os carros nacionais
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
O 147 foi apresentado no Estádio Governador Magalhães Pinto, o Mineirão, em uma grande cerimônia. Seu pequeno motor quatro-cilindros de 1.048 cm³ entregava 55 cv e 7,8 kgfm. Por causa do forte cheiro de cachaça que saía do escapamento, ganhou o apelido que carrega até hoje.
Apesar do “Cachacinha”, o 147 branco que pertence ao acervo histórico da Fiat é movido apenas a gasolina. Sentimos o gostinho de como é guiá-lo nos dias de hoje. Acertar os engates sem entender o tempo do motor, um dos pontos mais criticados daquela época, segue sendo um desafio. Mas é um carrinho valente, considerando que se trata de um “senhor” de 50 anos de idade.
Interior do 147 era simples e trazia somente o essencial
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
E vale dizer que Autoesporte orgulhosamente roubou um Fiat 147 da frota da Fiat em 1976. Não vale nos estendermos tanto por este assunto, pois o colunista Marcos Rozen escreveu um texto com todos os detalhes da ação (clique aqui para conferir na íntegra). Fica aqui um resumo da história:
Durante o evento de lançamento do Fiat 147, realizado na cidade de Ouro Preto (MG), o redator-chefe Expedito Marazzi descobriu que uma revista concorrente teve acesso antecipado ao carro e publicaria um teste completo. De supetão, bolou um plano: roubar um dos carros, trazê-lo para São Paulo, fazer todos os testes e publicar os resultados na edição daquele mês.
Autoesporte roubou um 147 vermelho para teste de 1976
Saulo Mazzoni/Autoesporte
No dia seguinte, Expedito levou o 147 ao Autódromo de Interlagos, onde, em suas palavras, “arrancou o couro” do pequeno valente.
Vender carros da Fiat há 50 anos era perrengue e exigia criatividade
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Apesar da aparência simplória, o 147 era repleto de inovações. O “Fiatinho” teve o primeiro motor transversal montado em um carro nacional — o que viria a se tornar comum — e foi o primeiro hatch a dar origem a uma picape compacta: a 147 Pick-Up, lançada anos depois.
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A Fiat repetiu a dose nas décadas de 80 e 90 com Fiorino e Strada, respectivamente. Essa última está em linha até hoje, agora dissociada da família Palio, e ostenta o título de carro mais vendido do país há cinco anos consecutivos.
Fiat Panorama: a família cresceu
Panorama foi a perua do 147 nos anos 80. É mãe da Elba e avó da Palio Weekend
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Antes da popularização dos SUVs, as peruas ocupavam as garagens das grandes famílias. Eram hatches alongados para aumentar a capacidade de carga, o que permitia alocar mais bagagem e melhorar o espaço dos joelhos.
Essa era a grande vantagem da Panorama sobre a Variant II, pois a perua Volkswagen tinha o motor instalado sob o assoalho traseiro. Não à toa, após a chegada do modelo italiano com sotaque mineiro, a perua da marca alemã foi tirada de linha em poucos anos. Como foi a experiência ao volante? Infelizmente, deu um xabu no trambulador do câmbio durante a sessão de fotos. Essa é a beleza de testar carros clássicos!
Fiat Panorama consolidou a primeira família de veículos da Fiat no Brasil
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Foi nessa época que a Fiat concluiu sua primeira “grande família” de veículos, formada por 147 (hatch), 147 Pick-up (picape), Panorama (perua) e o Oggi (sedã). Nos anos 80, foram substituídos por Uno, Fiorino, Elba e Prêmio; e, na década seguinte, por Palio, Strada, Palio Weekend e Siena.
Fiat Uno: o carro mais vendido do Brasil
Fiat Uno SX 1.3 1984: unidade raríssima foi umas das primeiras produzidas em Betim (MG)
Renato Durães/Autoesporte
O Fiat Uno merece um especial próprio. Inclusive, já produzimos um aqui na Autoesporte, onde dirigimos três versões icônicas do hatch: Mille, Grazie Mille e Ciao. Em parceria com o Museu da Imprensa Automotiva (Miau), elaboramos uma linha do tempo de sua história. Mas, dessa vez, recorremos ao acervo do colecionador Marcelo Paolillo, proprietário deste belo SX de 1984, para contar sua história mais uma vez.
O Uno foi lançado no Brasil apenas em 1984, mas sua história começou quatro anos antes, na virada da década. A Fiat decidiu projetar um substituto para o já mencionado 127, com o objetivo de que se tornasse um carro global. O novo hatch foi lançado na Europa em 1983.
Pegada esportiva marcava o Fiat Uno SX 1.3 1984
Renato Durães/Autoesporte
Já o ano de 1984 marcou o início da produção em Betim, com três versões: S (1.0 a gasolina, 52 cv), CS (1.3 a álcool, 60 cv) e SX (1.3 a álcool, 70 cv), sempre na carroceria de três portas. O sucesso foi instantâneo. Meses após o lançamento, o Fiat Uno foi eleito o Carro do Ano pela Revista Autoesporte. Este seria apenas o seu primeiro de três títulos na premiação.
O interior do Fiat Uno SX 1.3 1984 chamava atenção por ser incrementado
Renato Durães/Autoesporte
E o Uno SX nada mais era do que a versão de apelo esportivo. De certa forma, antecipava o método que seria — muito — aperfeiçoado nas versões 1.5 R (1986), 1.6 R (1990) e Turbo (1994), mas não havia muita “pimenta” no motor 1.3 da família Fiasa de 70 cv. No geral, carece de fõlego.
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Painel de instrumentos cheio de mostradores marcou gerações no Fiat Uno SX 1.3 1984
Renato Durães/Autoesporte
Mesmo assim, me diverti acelerando o Uno SX. É um carro para dirigir embalado, com o pé embaixo, enquanto o som inconfundível do motor Fiasa ecoa. O câmbio é preciso e demonstra clara evolução em relação ao antigo 147.
E o fato que talvez tenha instaurado o Fiat Uno no folclore automotivo brasilero foi a capacidade de driblar o seu próprio fim por tantas décadas. Quando o Palio foi apresentado em 1996, seu objetivo era substituir o antigo — e, há muitos anos, defasado — hatch compacto. Todavia, a Fiat enxugou o catálogo e passou a oferecê-lo como um carro de entrada.
Primeira geração do Uno ficou 29 anos em linha no Brasil
Renato Durães/Autoesporte
Inclusive, este método se tornou algo comum na história da marca. Um carro de volume nunca sai de linha para dar lugar a outro logo de cara. Sempre foi normal modelos antigos e novos, ou de diferentes gerações, coexistirem pacificamente por vários anos.
Nos anos 2000, o Uno se tornou o “carro de firma” por ser barato e eficiente. Foi quando a Fiat apresentou a versão Economy, a queridinha das empresas de telecomunicação, para acompanhar o facelift de 2005. Este trazia um ponteiro que ajudava a economizar combustível no lugar do conta-giros. Nascia o meme do “Uno com escada no teto” eternizado nas redes sociais. Foi produzido até 2013, quando deu adeus ao mercado com a versão Grazie Mille (“muito obrigado” em italiano).
Fiat Tipo: um sucesso abreviado
Fiat Tipo chegou ao Brasil importado da Itália antes de ser nacionalizado em Betim (MG)
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Lembra quando antecipamos que essa reportagem contaria a história da indústria automotiva brasileira pelos carros da Fiat? Já falamos sobre a criação do carro popular e da adoção do etanol. E o fato mais importante do setor dos anos 1990 foi a reabertura das importações.
Após decisão do ex-presidente Fernando Collor, a venda de carros importados deixou de ser proibida no Brasil. Várias marcas inéditas chegaram ao país, e quem já estava aqui precisou se mexer. Foi então que a Fiat lançou o Tipo, oriundo da Itália, em 1993. No primeiro comparativo contra o Golf na Autoesporte, se destacou pelo bom desempenho e pelo conforto.
Comparativo de 1995: Fiat Tipo e Renault 19 fazem duelo de hot hatches
Fiat Tipo peitava carros de peso, como o Volkswagen Golf e o Chevrolet Astra “belga”
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Desde os instantes iniciais desta primeira experiência ao volante do Tipo, me surpreendi com a suavidade do acerto de suspensão, montada em arranjo independente na dianteira e na traseira (onde tem braço semi-arrastado e molas helicoidais). Até hoje, nesta unidade bem conservada, traz o equilíbrio perfeito entre uma tocada mais firme e o conforto adequado para a cidade. Seu motor 1.6 tem 92 cv e 13,2 kgfm de torque.
Para um carro dos anos 90, o interior do Fiat Tipo era bem completo
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
A Fiat só não contava com uma intercorrência que viria a podar o potencial de sucesso do Tipo no Brasil. Um defeito na mangueira de alta pressão da direção hidráulica fazia o fluido quente deste sistema vazar sobre partes quentes do motor e do escape. Diversas unidades importadas lançadas entre 1993 e 1995 tiveram registros de incêndio.
147 e Tipo: dois ícones da Fiat no Brasil
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Em abril de 1996, a Fiat convocou 155 mil unidades do Tipo vendidas no Brasil para um megarecall. Sua produção continuou até 1997, mas a péssima reputação pesou contra. Em março daquele ano, o hatch médio deixou de ser produzido em Betim.
Fiat Palio: legado em boas mãos
Fiat Palio revolucionou o mercado de hatches compactos no Brasil
Divulgação/Fiat
A Fiat não tinha um Palio em seu acervo e, infelizmente, não conseguimos casar agendas para incluí-lo oficialmente neste especial. Mas vale uma menção honrosa a este que chegou a ocupar o posto de carro mais vendido do país.
Desenvolver o Uno deu tão certo para a Fiat que a marca decidiu manter a receita. Em meados dos anos 90, chamou o famoso designer italiano Giorgetto Giugiaro, responsável por desenhar tanto o 147 quanto o Uno, para criar este que marcaria o terceiro capítulo da marca no Brasil. O Palio chegou às lojas em 1996.
Primeira geração teve três facelifts durante seu tempo de existência no Brasil
Divulgação/Fiat
Em comparação com o Gol bolinha, tinha a vantagem de uma plataforma mais moderna, desenvolvida do zero. Também recebeu versões mais incrementadas, como a Citymatic, que trazia o câmbio semiautomático sem pedal de embreagem. Teve até um pacote com teto solar, algo inédito na categoria até então.
As versões mais equipadas ficaram pelo caminho enquanto o Palio avançava pelo novo milênio. Em 2003, foi o primeiro carro da marca a oferecer um motor flex. Após a chegada do Punto, a Fiat voltou a adotar a estratégia de simplificá-lo para garantir um preço mais atrativo. Saiu de linha em 2018 após duas gerações no Brasil, com 22 anos de história. Seu sucessor, embora não carregue o mesmo nome, é o Argo.
Fiat Fiorino Trekking: o Brasil que trabalha — e se diverte
Fiat Fiorino Trekking 1996 foi picape compacta que mirava os jovens
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
A partir dos anos 90, as picapes compactas deixaram de ser vistas como veículos meramente utilitários. Havia um apelo jovial e a oportunidade de atrair praticantes de esportes radicais, surfe e outras modalidades. No embalo da Volkswagen Saveiro Summer, veio a Fiat Fiorino Trekking.
Suspensão com eixo ômega está presente na Strada até hoje
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Além do visual incrementado, com belíssimos faróis de milha superiores, a Fiorino Trekking tinha o famoso eixo ômega. A peça da suspensão traseira recebeu este nome por conta do formato similar ao da letra grega, que reduzia o risco de batidas em obstáculos. Era uma pincelada de “off-road” na picape compacta.
Fiat Strada e Toro: as best-sellers
Fiat Strada é o carro mais vendido do Brasil
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
É impossível chegar aos dias atuais da Fiat sem citar essa dupla. A Strada é o carro mais vendido do nosso mercado há cinco anos consecutivos e agora está em busca do hexacampeonato. Talvez o segredo do sucesso esteja na versatilidade, pois é vendida tanto em versões voltadas ao trabalho quanto em configurações mais urbanas. O modelo de cabine dupla não deixa mentir.
Fiat Strada Volcano: 5 razões para comprar e 5 motivos para pensar bem
Fiat Toro foi inovadora e conquistou até os donos de sedãs e SUVs médios
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Quanto à Toro, ainda que não tenha sido a primeira picape intermediária do país — a Oroch chegou meses antes —, foi a responsável por popularizar o segmento. A ideia de adquirir um SUV com caçamba atraiu o motorista brasileiro, que viu a oportunidade de carregar suas bicicletas na caçamba ou de viajar para o sítio da família com menos aperto.
Teste: Fiat Toro 2026, o que melhorou e o que poderia ter melhorado
E os próximos 50 anos?
Para onde vamos? Veja como serão os próximos 50 anos da Fiat
Augusto Lazaro Rodrigues/Autoesporte
Vislumbramos agora o início dos próximos 50 anos da Fiat no Brasil. E o mais interessante é observar como este círculo se completa. Veja só:
A marca volta a apostar num carro europeu, o Grande Panda, para dar origem a um hatch popular nacional, o Argo X. Ou seja, é a mesma relação entre o 127 italiano e o 147 mineiro que citamos no início deste texto — cinquenta anos depois, a fórmula se repete.
Fiat Grande Panda Hybrid – frente diagonal
Divulgação
Até 2030, a Fiat ainda terá um novo SUV de porte médio acima do Fastback, que busca repetir o impacto da espaçosa Panorama na década de 80. Haverá também uma picape compacta, derivada do Argo X, que trará a mesma receita vitoriosa do trio 147 Pick-Up, Fiorino e Strada.
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