Citroën e Peugeot têm futuro incerto no Brasil em novo plano da Stellantis


Durante o anúncio do plano de investimentos de US$ 70 bilhões ou R$ 350 bilhões para o Brasil, a Stellantis fez várias confirmações para o mercado brasileiro, que vão totalizar dez produtos inteiramente novos e a adoção de uma nova plataforma (a STLA Medium) e nova motorização eletrificada até 2030.
Como já contamos em outros artigos, a estratégia prevê: uma nova geração do Fiat Argo; três novos SUVs da marca Fiat (novos Pulse e Fastback, e um inédito de sete lugares); novas gerações dos Jeep Renegade, Compass e Commander; novas gerações das picapes Fiat Strada, Fiat Toro e Ram Rampage; e uma inédita motorização híbrida plena (HEV) flex.
Percebeu alguma ausência? Pois é: não há qualquer menção a Citroën ou Peugeot em todo o cronograma anunciado para o mercado brasileiro! E isso é um sinal nada positivo para o futuro das duas marcas francesas em nosso país.
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É claro que não se encerra duas operações antigas como as de Citroën e Peugeot em um mercado complexo como o Brasil de uma hora para outra. Especialmente quando sabemos que, nos últimos anos, as duas marcas atualizaram profundamente o portfólio de produtos, com os novos Citroën C3, Aircross e Basalt, além da troca de geração dos Peugeot 208 e 2008.
Peugeot 2008 estreou em nova geração em 2024
Júlia Maria Toledo/Autoesporte
Entretanto, apesar desses investimentos, a participação das duas francesas nos percentuais nacionais de venda insiste em não responder positivamente.
Após uma perspectiva de crescimento pós-pandemia, com os melhores resultados em mais de uma década para as duas marcas obtidos em 2022, Citroën e Peugeot voltaram a perder terreno nos últimos três anos e, em 2026, estão com percentuais ainda mais baixos, especialmente devido ao avanço de novas concorrentes chinesas. Confira o histórico na tabela abaixo:
Citroën e Peugeot – Histórico de participação no mercado brasileiro
Por isso, não haver nenhuma menção às duas nos planos de médio prazo da Stellantis para o Brasil pode indicar que a empresa já não enxerga mais solução para elas. Mesmo com a troca de plataforma dos produtos e a adoção da mesma motorização 1.0 Firefly e 1.0 Turbo 200 usada em carros da Fiat, o antigo legado de falta de confiabilidade, má fama no pós-venda e desvalorização no mercado de usados parece ter se tornado um barreira intransponível.
Autoesporte apurou que, entre concessionários, a sinalização implícita é a de falta de perspectiva de novos produtos e descontinuação gradual das operações. Como os contratos com a rede de revendedores são muito restritivos e preveem indenizações altíssimas em caso de rescisão antes da hora, a tendência é que a Stellantis ofereça, em vez disso, a representação de outras marcas de seu guarda-chuva, como a chinesa Leapmotor.
Uma das soluções da Stellantis pode ser trocar aos poucos a rede de Peugeot e Citroën por lojas da chinesa Leapmotor
Reprodução/Grupo Amazonas
Segundo fontes, a montadora já estaria, inclusive, oferecendo a alguns grupos de lojistas a possibilidade de suspender a representação das marcas Citroën e Peugeot por até três anos, dando a eles a abertura para usar os espaços de revenda para operar com outra marca no período. Passado esse prazo, o concessionário decide se quer voltar ou não, recebendo as devidas compensações financeiras caso opte por encerrar o contrato definitivamente.
Há outro fator em jogo. A partir deste ano, a Stellantis vai lançar os dois primeiros produtos Fiat e Jeep no Brasil com a plataforma CMP já usada por Citroën e Peugeot. No caso específico da Fiat, os novos Argo, Pulse, Fastback, além de um inédito SUV de sete lugares (estes dois últimos, derivados do projeto europeu Grizzly) usarão a mesma estrutura de C3, Basalt e Aircross, ocupando uma faixa muito parecida de preços. Não há por que manter tantos carros concorrendo entre si.
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Por fim, um detalhe nada fortuito. Em sua participação no podcast CBN Autoesporte, que foi ao ar em 13 de maio, o diretor de operações da DFM (Dongfeng) no Brasil, Felipe Amaral de Souza, admitiu conversas com a Stellantis para compartilhar o uso da fábrica de Porto Real (RJ), que atualmente produz os três carros nacionais da Citroën.
“As duas parcerias mais exitosas [da Dongfeng] na China [são com] Nissan e PSA [Peugeot e Citroën]. Então, naturalmente, esses parceiros já são quase que globais e conversas sempre vão existir. Ainda não está cravado, mas, sim, [a fábrica de Resende (RJ)] da Nissan é uma das opções. [A da Citroën em Porto Real (RJ)] é outra opção que a gente já olhou também”, revelou Felipe Amaral de Souza, diretor de operações da DFM no Brasil.
Citroën Basalt linha de produção fábrica Porto Real (RJ)
Divulgação
A revelação de Amaral não significa que o acordo de compartilhamento esteja fechado, mas dá bons indícios das perspectivas que a Stellantis tem para aquele complexo. Se a fabricante considera compartilhar o uso do complexo fluminense com outra montadora, é sinal de que não pretende manter em linha os produtos da Citroën ali por muito mais tempo. Afinal, fora a fabricação do Jeep Avenger a partir deste ano, não há a previsão de nenhum outro investimento para o local.
Se o destino da Citroën no Brasil parece já traçado, a Peugeot vive um cenário ligeiramente distinto, pois a marca tem força na Argentina e produção no país vizinho. Isso pode garantir sua sobrevida no Brasil, como um mercado secundário que apenas ajuda a operação na América do Sul a ter volumes um pouco melhores de vendas e produção.
Segundo o Autos Segredos, há em desenvolvimento uma futura geração regional do Peugeot 3008, cuja produção poderia ser destinada para a Argentina. Entretanto, esse projeto fica em dúvida uma vez que ele sequer foi mencionado no plano estratégico da Stellantis.
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