Teste: Volvo EX60 conversa com o motorista e tem autonomia de SUV a diesel


Não à toa, Barcelona (Espanha) é uma das cidades mais visitadas do mundo. Tem topografia relativamente plana, com muitos dias ensolarados e temperaturas agradáveis a maior parte do ano. Seria a cidade perfeita para o turismo? Me faço essa pergunta dirigindo pela capital catalã durante o evento de test-drive global do novo Volvo EX60, que tem lançamento confirmado no Brasil entre outubro e novembro, na faixa dos R$ 550 mil.
A dúvida sobre Barcelona surge quase ao mesmo tempo em que me pergunto se o EX60 é o carro elétrico definitivo. Tal qual Barcelona, o SUV tem uma série de atrativos. A começar por uma novíssima plataforma chamada SPA3, capaz de dar origem a carros menores que o EX30 e maiores que o EX90. Nela, a estrutura traseira do chassi é montada em uma grande peça de alumínio, enquanto a enorme bateria de 95 kWh é parte da estrutura. As vantagens? Redução de complexidade dos processos e, principalmente, de peso, o grande inimigo dos carros elétricos.
Carro mais inteligente do mundo
Mas o grande trunfo é a arquitetura eletrônica HuginCore, desenvolvida pela própria Volvo com a colaboração de gigantes da tecnologia como Google e NVidia. Um supercomputador substitui, de uma só vez, uma centena de pequenas centrais eletrônicas, e pode processar 250 trilhões de atividades por segundo. O temor de o carro ficar ultrapassado também é relativizado pelo fato de o EX60 receber atualizações remotas via nuvem.
Teto panorâmico do EX60 Ultra tem luminosidade ajustável
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A troca constante de dados permite monitorar todos os sistemas do veículo e garantir que tudo está funcionando como deveria. Até um simples cinto de segurança passou a ser integrado à eletrônica do carro. Inventora do cinto de três pontos, em 1959, agora a Volvo traz um sistema que detecta peso, altura e postura dos ocupantes para, em caso de colisões, ajustar o tensionador e reduzir a chance de ferimentos.
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O EX60 também é o primeiro veículo do mundo a usar a inteligência artificial do Google de forma integrada. O Gemini pode ser acionado por comando de voz e traz uma experiência de conversa realmente natural.
Apesar dos alertas do pessoal da Volvo, de que o único idioma com funcionamento garantido era o inglês, resolvi puxar assunto em português. Uma voz masculina com leve sotaque fluminense me deu, em claro português brasileiro, dicas de pontos turísticos de Barcelona. Ao mencionar que estava com fome, o assistente do Gemini perguntou se tinha alguma preferência por tipo de comida e indicou restaurantes na cidade.
Volvo EX60 P10 Ultra segue a identidade visual criada há uma década
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A conversa fluiu normalmente, com respostas rápidas e uma enorme compreensão do que eu dizia. Porém, quando pedi para indicar um ponto de recarga no meu caminho até o destino, recebi uma resposta em inglês, dizendo que aquela operação não era possível. Mas lembra que eu te disse que o EX60 poderá ser atualizado remotamente? É bem provável que a questão seja solucionada em atualizações futuras.
Aliás, se houvesse um humano “do outro lado” para responder minha pergunta, correria o risco de ser julgado como maluco. Afinal, mesmo após rodar mais de 200 km com o EX60, o indicador de autonomia ainda apontava 350 km restantes de alcance. No padrão europeu WLTP, a versão P10, a primeira a chegar ao Brasil e avaliada por Autoesporte na Espanha, pode rodar 660 km com uma carga da bateria. No ciclo do Inmetro, esse alcance deve cair para algo na casa dos 500 km, ainda assim um dos melhores do país.
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A velocidade de recarga também impressiona. Ainda que faltem aparelhos com tal capacidade em nosso país, a arquitetura de 800 Volts permite que o SUV recarregue a bateria a até 400 kW (DC). Nesse cenário, ir de 10% a 80% leva apenas 16 minutos, e só dez minutos são suficientes para o “tanque” encher o bastante para adicionar 315 km no marcador de autonomia. Também impressiona a capacidade de recarga lenta (AC), de 22 kW, quando habitualmente temos 6,6 kW ou 11 kW.
Como anda o Volvo EX60
Por enquanto, Volvo confirmou três motorizações para o EX60; potência vai de 374 cv a 680 cv
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Eu diria que o desempenho é tão bom quanto a comida mediterrânea servida em Barcelona. O EX60 P10 traz dois motores elétricos, um em cada eixo. Combinados, entregam 510 cv de potência e 72,4 kgfm de torque, capazes de levar o SUV de quase 2.200 kg de 0 a 100 km/h em apenas 4,6 segundos.
Como em todos os Volvo, a velocidade máxima é limitada a 180 km/h. Mas, além de ter cavalaria compatível à de um Porsche, como anda o candidato a best-seller da Volvo no Brasil? Para isso, percorremos cerca de 200 km com duas versões do EX60 saindo de Barcelona até a região produtora de vinhos próxima ao Montserrat, nas redondezas da capital catalã.
Começando pela opção de entrada, P6, ainda em estudos para o Brasil, temos a prova de que muitos cavalos às vezes são mais úteis para mais para mostrar aos amigos do que no uso cotidiano. No caso do EX60, tal configuração traz 374 cv e 48,9 kgfm. São números já bastante generosos, e que empurram o modelo de 0 a 100 km/h em só 5,9 segundos. Nesse caso, como há apenas um motor elétrico posicionado na traseira, a tração também é só nas rodas posteriores.
Em relação ao P10, perde-se também a suspensão adaptativa e ajustável em três níveis e um modo de condução voltado para a performance. Ainda é cedo para avaliar se a economia do P6 em relação à opção mais completa vale a pena, mas como variante básica da linha, o modelo cumpre muito bem sua função.
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Até porque, o EX60 virá ao Brasil sempre com o pacote mais completo, Ultra. Isso significa que aspectos como frenagem regenerativa adaptativa (ajustada automaticamente) e um pacote completíssimo de assistências ao condutor também estarão presentes. O assistente de faixa, por exemplo, pode alternar entre as faixas de uma mesma via ao comando da seta. Infelizmente, o recurso não deve vir ao Brasil por falta de homologação e de vias devidamente sinalizadas.
Já a bordo do EX60 P10, sentimos uma diferença notável (e esperada) no comportamento do carro. Respostas instantâneas e maior equilíbrio dinâmico provocado pela tração integral são as principais características da versão intermediária. No acerto mais rígido da suspensão adaptativa, que faz o carro pendular muito menos de um lado para o outro, é preciso controlar o ímpeto em curvas mais fechadas, pois a estabilidade do SUV instiga o motorista a sempre acelerar mais.
Como todos os Volvo modernos, o EX60 tem velocidade limitada a 180 km/h
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Nas autoestradas de Barcelona, também não foi difícil alcançar o limite de 120 km/h. Além de a típica “patada” de carros elétricos com abundância de torque logo ao pisar no acelerador, o EX60 oferece um dos melhores isolamentos acústicos que já presenciei em carros elétricos. A falta de ronco do motor é óbvia, mas os vidros duplos em todas as portas deixam a cabine praticamente vedada de qualquer som de rolamento dos pneus ou do vento.
Ao mesmo tempo, a sensação ao dirigir o EX60, tanto o P6 como o P10, é de que o novo elétrico da Volvo é um carro muito menor do que, de fato, é. Seria exagero compará-lo com o pequenino EX30, mas se não tivesse visto a ficha, diria que o novo SUV da Volvo é 15 cm mais curto e estreito. É um carro surpreendentemente fácil de manejar e, na medida do possível, manobrar.
Entendo que uma das hipóteses para essa percepção seja a direção bastante direta (mas macia) e o volante pequeno, lembrando os carros atuais da Peugeot.
Quadro de instrumentos de 10 polegadas é posicionado no topo do painel do Volvo EX60 P10 Ultra
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O princípio, aliás, é o mesmo do i-Cockpit da marca francesa: o quadro de instrumentos (digital e de 10 polegadas no Volvo) é visualizado por cima do aro superior do volante. Aliás, o cluster foi posicionado ali de modo que o motorista não tenha distrações e possa manter os olhos na via. Certa contradição, considerando que o EX30 obriga que o condutor olhe para a central multimídia para checar a velocidade, pois não há painel de instrumentos… Que bom que a Volvo reviu este conceito.
O pacote de equipamentos ainda traz teto panorâmico com ajuste de luminosidade, sistema de som com 28 alto-falantes, incluindo saídas nos encostos de cabeça dos bancos dianteiros, bancos com ajustes elétricos e memória, e ar-condicionado digital de três zonas. O acabamento, livre de couro ou materiais de origem animal, é de excelente qualidade.
No Volvo EX60, menu à esquerda da tela é fixo e pode ser ajustado de acordo com a situação
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O design do Volvo EX60
No visual externo, o novo Volvo EX60 evolui, sem dúvidas. Mas não espere algo disruptivo como a Sagrada Família ou a Casa Batlló, obras primas de Galdí, já que falamos sobre Barcelona. Aproveitando a identidade visual lançada uma década atrás, a Volvo deixou o novo SUV mais refinado, com caixas de rodas traseiras mais pronunciados e lanternas dispostas não apenas na posição convencional, como também na vertical, ao lado do vidro do porta-malas. Na frente, não resta a menor dúvida de que o EX60 é uma evolução do XC60.
Volvo EX60 P10 Ultra tem porta-malas frontal de 58 litros
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Mas os suecos tiveram que ajustar as linhas, porque o novo SUV é consideravelmente maior do que a versão híbrida de geração anterior. São 4,80 metros de comprimento, incríveis 2,97 m de entre-eixos, 1,90 m de largura e 1,64 m de altura. Assim, o EX60 é 9 cm mais comprido, 2 cm mais baixo e tem mais de 10 cm a mais em entre-eixos do que um XC60. Logo, sobra espaço para até três adultos no banco traseiro, graças ao assoalho plano. No porta-malas, vão excelentes 523 litros. Na frente, um compartimento extra acomoda outros 58 litros.
A cabine do EX60 poderia ser facilmente comparável à La Pedrera, edifício construído por Galdí no início dos anos 1900 cheio de soluções inovadoras. Colocar o porta-luvas no console central, por exemplo, permite que motorista e passageiro acessem o compartimento com a mesma facilidade, como nos explicou Louise Annermalm, designer de interiores da Volvo.
Segundo a Volvo, porta-luvas central facilita acesso para o motorista
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E o acionamento, obrigado, é mecânico. O porta-copos retrátil é outra boa sacada, pois permite diferentes ajustes, de acordo com a quantidade de objetos carregados ali. Nada disso é realmente novo. Outros modelos da Volvo já trazem tais características.
Uma novidade é que os suecos ouviram clientes e jornalistas para trazer de volta os quatro botões para comandar os vidros elétricos na porta do motorista, e não apenas dois alternando entre os dianteiros e os traseiros, como no EX30 e no EX90. Só derraparam ao deixar os comandos de ventilação apenas na central multimídia, embora os ajustes fiquem disponíveis o tempo inteiro em uma régua no “pé” da tela.
A tela OLED de 15,04 polegadas tem excelente resolução e interface amigável. Há um menu na extremidade esquerda chamado de área contextual. Ali, só são exibidos comandos que façam sentido naquele exato momento. Por exemplo, ícones de regulagem dos retrovisores quando o carro está parado ou prestes a manobrar, ou aplicativos de música durante a condução. Aposto que Galdí ficaria orgulhoso com tamanha engenhosidade.
Central multimídia do Volvo EX60 deixa comandos de ventilação fixos na base da tela
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Prestes a finalizar o texto, é necessária uma última analogia ao maior dos arquitetos de Barcelona para falarmos de tempo. A Sagrada Família, templo em construção há 144 anos, é prova de que nem sempre é possível controlar o ritmo de algumas coisas. Tal qual o ritmo de uma obra, a velocidade na direção da eletrificação dos carros parece ter diminuído nos últimos anos. Por isso, a Volvo decidiu que 2030 não seria mais o ano em que todos os seus veículos passariam a ser elétricos. Logo, criou-se um problema indireto.
O XC60, talvez marcado para morrer em alguns anos, ganhou uma sobrevida. Inclusive, deverá receber mais atualizações a médio prazo. Só que terá que conviver com o EX60, que traz uma base moderníssima e resolve praticamente todos os problemas de um carro elétrico: tem autonomia de sobra e pode ser atualizado remotamente, ficando sempre atual. Talvez estejamos diante da obra prima da Volvo.
Volvo EX60 – Prós e contras
Pontos positivos: excelente autonomia, espaço interno, isolamento acústico e comportamento dinâmico
Pontos negativos: falta de botões físicos; assistente de IA funciona bem, mas não tanto em português.
Ficha técnica – Volvo EX60 P10 Ultra
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