BYD atrasa entrega de carros por venda PCD e clientes processam marca


Karyne de Freitas, 48 anos, trabalha como motorista particular em Cuiabá (MT) e sentiu que precisava de algo mais novo do que seu Toyota Corolla 2020/2021, para dar conta tanto das corridas como Uber Black quanto dos clientes corporativos que atende em paralelo.
Por conta disso, a motorista, portadora de deficiência e com mobilidade reduzida, viu na BYD uma boa alternativa de renovação. Assim, em outubro do ano passado, fechou a compra de um BYD Song Pro GL, com isenção de impostos voltada a clientes PCD que derrubou o preço total do SUV híbrido para R$ 147.990.
Diante da boa impressão deixada pela concessionária Saga de Cuiabá (MT), decidiu confiar: vendeu seu Corolla e usou parte do recebido como entrada para o Song Pro. O resto do dinheiro veio de um financiamento em 60 parcelas mensais de R$ 2.884,40 cada.
Parecia um negócio promissor para a profissional, mas tudo deu errado em seguida. Karyne começou a insistir para receber o veículo junto à concessionária que intermediou a venda direta, mas não recebia seu carro de jeito nenhum.
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Nas conversas com os vendedores, chegou a aceitar uma mudança na cor do veículo para recebê-lo logo. Enquanto isso, não tinha mais o seu Corolla para trabalhar, pois este já havia sido entregue na troca, e as parcelas do financiamento chegavam mensalmente.
BYD Song Pro 2026
Divulgação
Após meses sem trabalho e sem carro, a solução foi recorrer à Justiça, obtendo uma liminar para que, enfim, o Song Pro fosse entregue em 25 de fevereiro deste ano. Uma espera de 130 dias, relatada no processo ao qual Autoesporte teve acesso.
O caso de Karyne não é isolado: pelo Brasil, diferentes clientes PcD relatam atrasos intoleráveis na entrega de seus carros por parte da BYD — e a Justiça vem sendo a opção adotada, cada vez mais, para que a fabricante entregue os veículos vendidos.
Concessionária BYD
Foto: Eduardo Passos/Autoesporte
Pagou à vista e ficou sem nada
Gustavo Kaufmann, de 46 anos, trabalha como analista legislativo em Brasília (DF), onde, em novembro do ano passado, encontrou um BYD King GS azul que parecia a escolha ideal.
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Atraído pela proposta tecnológica da marca, Gustavo topou comprá-lo à vista. Como é portador de esclerose múltipla, também conseguiu descontos para PCD e adquiriu o sedã por cerca de R$ 160.000, pagos logo após o Natal.
Como no caso de Karyne, entretanto, os atrasos na chegada do veículo foram se acumulando. A data original de entrega — 23 de janeiro — foi adiada um dia antes do combinado, indefinidamente. E esse foi só o começo.
BYD King 2026
Foto: Divulgação
Entre respostas evasivas dos vendedores, Gustavo recorreu ao Reclame Aqui e ao SAC da montadora, mas o máximo que conseguiu foi uma nova promessa de entrega para o começo de abril, que também não foi cumprida.
Isso porque, no dia 10 do respectivo mês, a loja informou que o King do comprador havia sido embarcado em um navio que partira da China oito dias antes. Dessa forma, ele só chegaria em 4 de junho — 161 dias corridos após o pagamento do sedã.
Cada vez mais inconformado, Gustavo exigiu prazos mais ágeis e recebeu uma proposta da concessionária Saga: um King branco, a ser entregue no dia 13 de abril, com um chaveiro de brinde. Ele aceitou, mas o carro não veio mais uma vez. Em sua última conversa com a reportagem, informou que recebera o mês demaio como a nova data de entrega, mas já não tinha muita fé na palavra da loja.
Enquanto recorre ao carro da esposa e a viagens via aplicativo, sua preocupação maior agora é reaver, na Justiça, os R$ 160 mil que, há quatro meses, deixou na mão da BYD e ficou a ver navios. “Até já pedi para o meu consultor de investimentos calcular quanto dinheiro eu deixei de ganhar, porque esse valor não esteve aplicado durante esse tempo. Isso e outras informações serão juntadas no meu processo”, contou.
A culpa é de quem?
Envolvidos se queixam de falta de transparência dos lojistas e de prazos claros para a entrega
Foto: Thinkstock
Os carros comprados por pessoas com deficiência (PCD) entram na modalidade de vendas diretas, nas quais a concessionária só intermedia o contato entre cliente e fábrica para a entrega do veículo. Clientes ouvidos por Autoesporte, entretanto, queixaram-se da falta de transparência dos lojistas na condução dos problemas.
Sob anonimato, um dos consumidores afetados relatou um caso em que a vendedora afirmou depender apenas de espaço na agenda para finalmente entregar o carro atrasado. O cliente, entretanto, não acreditou e pressionou a mulher, que mudou de tom e abriu o jogo.
“Vou te falar a realidade do que está acontecendo. Meu financeiro não consegue te liberar o carro porque a BYD não transferiu o seu pagamento para o seu chassi”, teria afirmado a lojista. Sem essa etapa, nas palavras dela, o sistema interno utilizado da fábrica ao showroom tornava impossível qualquer ação no sentido de liberar o carro para o cliente.
Justificativa semelhante foi dada pela Saga de Cuiabá, que acusou a BYD de ter levado quase um mês só para faturar o pedido de Karyne. Depois disso, levou-se mais de um mês só para a fábrica reconhecer que o pagamento havia sido efetuado.
Prazo de cobertura dos veículos da BYD aumentaram para 6 anos
Foto: Eduardo Passos/Autoesporte
“O valor recebido pela concessionária foi devidamente repassado à montadora em 2 de janeiro de 2026. Todavia, o reconhecimento administrativo desse pagamento pela montadora ocorreu apenas em 10 de fevereiro, etapa indispensável para a continuidade do fluxo operacional da entrega”, afirmou a Saga no processo, em que sequer contestou a razão de Karyne.
Apesar da coincidência, não é apenas a rede Saga que lida com esses entraves: casos semelhantes foram apurados pela reportagem em outras seis concessionárias diferentes, em estados do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil. Em comum, também há as respostas evasivas da rede e as remarcações constantes na entrega.
O que diz a BYD
Questionada por Autoesporte, a BYD afirmou que “comenta a situação apenas individualmente”. A marca solicitou as evidências cedidas por Gustavo Kaufmann, mas a reportagem optou por liberar informações limitadas, a fim de resguardar testemunhas do problema.
Quanto ao problema de Karyne de Freitas, as informações do processo são públicas e foram encaminhadas aos porta-vozes da marca. Nesse caso, entretanto, a BYD afirmou que responderá apenas judicialmente.
Ela já fez isso, inclusive: nos autos, a defesa da montadora chinesa afirmou que a motorista “poderia ter utilizado outro carro para trabalhar enquanto esperava pelo seu Song Pro”. Também afirmou-se que não havia “estipulação contratual de prazo específico de entrega [do carro] pela fabricante”.
Por fim, o pedido de indenização pleiteado pela defesa de Karyne seria uma tentativa de “elevar ao patamar de abalo moral” o que seria, segundo os advogados da BYD, apenas “uma discussão logística”.
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