Mitsubishi Triton Savana 2026 aguenta 1.500 km na BR-319 e Transamazônica?


Chamado “inverno amazônico”, é o período mais chuvoso do ano na região, entre dezembro e junho. O clima é quente e muito úmido, com chuvas fortes ao longo do dia. É terça-feira, 13h. O termômetro marca 35 °C em Manaus depois de uma manhã com sol e chuva intercalados. Estou nos últimos preparativos antes de sair com a nova Mitsubishi Triton Savana rumo às temidas BR-319 e Transamazônica. O objetivo é percorrer os quase 1,5 mil km em três dias.
A nova Savana é baseada na versão Katana, topo de linha, e custa R$ 349.990. O motor é o mesmo Mivec 2.4 turbodiesel de quatro cilindros, com bloco de alumínio, que entrega 205 cv de potência e 47,9 kgfm de torque. O câmbio é automático de seis marchas e a tração, 4×4 com diferentes modos: 2H (tração traseira), 4H (tração 4×4), 4HLc (4×4 com diferencial central bloqueado) e 4LLc (4×4 com diferencial central bloqueado e reduzida).
Todo o conjunto mecânico — motor, transmissão, diferencial traseiro e tanque de combustível — é protegido por uma chapa de aço sob o chassi. Os para-choques têm reforços de metal, assim como os Rock Sliders nas laterais, que servem de escudo contra impactos fortes com pedras e troncos, principalmente. Há também snorkel, com 80 centímetros de capacidade de transposição de água, para evitar calço hidráulico em situações de alagamento. O vão livre em relação ao solo é de 22,2 cm. O ângulo de entrada, de 29°, e o de saída, de 23,4°.
Nova Mitsubishi Triton Savana na travessia do Porto da Ceasa
Murilo Góes/Autoesporte
A BR-319 começa em Manaus, com asfalto liso. São 5 km até o Porto da Ceasa, onde fizemos a travessia de balsa (R$ 60 em dinheiro) após 30 minutos de espera. A viagem dura 1 hora e passa pelo encontro dos rios Negro e Solimões, cujas águas não se misturam devido às diferenças de temperatura e densidade, criando um contraste entre tons escuros e claros. No trajeto, embalamos as malas com sacos de lixo e as prendemos na caçamba com redes elásticas, as aranhas, já que a Savana não tem capota marítima.
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Descendo da balsa, o cenário muda completamente: o asfalto liso dá lugar a uma estrada esburacada, irregular e com muita terra. Como saímos mais tarde de Manaus e o dia seguinte seria o mais puxado, o deslocamento foi mais curto: seguimos até Careiro Castanho, município de 30 mil habitantes, a 110 km da balsa. Com o modo de tração 2H ativado, é preciso ter atenção à pista estreita e ao intenso fluxo de caminhões.
Nova Mitsubishi Triton Savana começa enfrentar maiores desafios depois da passagem de balsa
Murilo Góes/Autoesporte
A noite chega com uma tempestade. O limpador de para-brisa trabalha na velocidade máxima, mas a visibilidade é mínima. Sem qualquer sinalização na rodovia, sigo guiado pelos faróis dos caminhões no sentido oposto e pelos clarões dos raios. A chuva intensa dura 40 minutos e só diminui quando chegamos a Careiro Castanho para passar a noite. Pelo menos os sacos de lixo funcionaram e as malas não molharam.
Saímos de Careiro às 6h de quarta-feira rumo a Humaitá, município de 58 mil habitantes. São 593 km, e o mapa na central multimídia de 9 polegadas — com CarPlay apenas via cabo — indica 11 horas de viagem. Completamos o tanque de 75 litros na saída, pagando R$ 7,99 o litro.
Depois da chuva da noite anterior, a solo ficou com mais barro e foi preciso ativar o modo 4H da nova Mitsubishi Triton Savana
Murilo Schaun/Autoesporte
Uma placa sinaliza que o próximo posto fica a mais de 500 km dali. Indo na direção de Humaitá, com o céu carregado de nuvens, a condição do asfalto só piora antes de começarmos o trajeto de 400 km de terra do trecho do meio. É uma sequência de crateras, com enormes poças d’água e um cenário com peças de carros largadas e resquícios de acidentes.
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A Savana tem rodas aro 18” com pneus GoodYear Wrangler Duratrac RT 265/60 R18, 80% voltado para o off-road e 20% para o asfalto. Para encarar a lama, baixamos a calibração de 36 para 28 psi.
Nova Mitsubishi Triton Savana tem 2H, 4H, 4HLc e 4LLc como modos de tração
Murilo Góes/Autoesporte
A viagem segue e, quando percebemos, só há floresta ao redor. Uma placa alerta: “Fim do trecho pavimentado a 52 km”. Porém, em menos de 10 km o asfalto termina, dando lugar a um verdadeiro campo minado de buracos cheios de água. Bem-vindo ao temido trecho do meio.
Depois do fim do fim do trecho pavimentado são mais de 400 km só de terra
Murilo Góes/Autosporte
O clima úmido da floresta faz a água demorar a secar. É hora de engatar o 4×4 e iniciar um jogo estratégico: ir de um lado para o outro na pista tentando desviar dos buracos. Mas é em vão. É batida atrás de batida, e os amortecedores trabalham forte.
A Savana tem suspensão independente de braços triangulares duplos na dianteira e eixo rígido com feixe de molas semielípticas na traseira, o que é bom para controlar a absorção de impactos. Reivindicar conforto é impossível nos próximos 150 km: a cabine treme sem parar até chegarmos à balsa de Igapó-Açu, em Manicoré. Aqui, o que conta é resistência.
Algumas balsas estão pelo caminho durante a BR-319
Murilo Góes/Autoesporte
No decorrer da rodovia, principalmente no trecho do meio, ambulantes vendem combustível de forma ilegal. Na fila de espera da balsa, ambulantes vendem galões de 20 litros de diesel S10 por R$ 200 — além de ilegal, esse combustível é adulterado. Já a travessia na balsa custa R$ 30 e dura cerca de 15 minutos. Chegamos ao coração do trecho do meio.
BR-319 tem placas em vários locais com ambulantes vendendo combustível
Murilo Góes/Autoesporte
Começa uma chuva forte e o cenário fica intimidador — e perigoso. O solo, que já era ruim, piora ainda mais com áreas inundadas e muito escorregadias. Nesse momento, é possível sentir a eficiência dos pneus da Savana. Caminhões vêm no sentido oposto deslizando sem controle na lama e, com frio na espinha, preciso jogar a Savana dentro do mato para evitar um acidente. Carretas tombadas e atoladas se tornam cenas comuns. Flagramos até um caminhão pegando fogo.
Nova Mitsubishi Triton Savana enfrentou muitos atoleiros
Murilo Góes/Autoesporte
A dupla do canal no YouTube “Inverno na Transamazônica”, Thiago e Rafael, especialistas em desatolar veículos na região, nos acompanhou na travessia e foi essencial para salvar caminhoneiros atolados ao longo da BR-319. Em áreas com camada espessa de lama, precisei usar o modo 4HLc, com diferencial central bloqueado, para não entrar na estatística dos atolamentos.
Inverno na Transamazônica com sua a Mitsubishi L200 2012 desatolando caminhões na BR-319
Murilo Góes/Autoesporte
O trecho do meio é, de fato, hostil. Sem as proteções de série na versão Savana, a Triton certamente sofreria danos severos. A direção exige atenção total: basta desviar o olhar por meio segundo — para beber água, por exemplo — e corre-se o risco de um acidente. Quando a noite chega, o trecho final até Humaitá é de asfalto precário: buracos com mais de 2 m de diâmetro e profundidade suficiente para destruir qualquer carro.
Chegamos a Humaitá às 3h de quinta-feira, 21 horas depois de sair de Careiro. Pelo menos os últimos 30 km foram de asfalto liso. Mal dormimos e, às 9h, já estávamos prontos para concluir a missão no terceiro dia. Abastecemos a Savana com 65,1 litros — R$ 469, ou R$ 7,20/litro.
Nova Mitsubishi Triton Savana é muito bem protegida para suportar impactos, principalmente na lateral
Murilo Góes/Autoesporte
Em vez de seguir direto para Porto Velho, retornamos naqueles mesmos 30 km de asfalto liso até o único ponto em que a BR-319 cruza com a BR-230; viramos à direita, sentido Lábrea, para alcançar o ponto final da famosa Transamazônica, a 215 km de distância.
Apesar da manhã ensolarada, a famigerada rodovia está um verdadeiro lamaçal. Quanto mais avançamos, mais escorregadia fica. Ali há muito mais subidas e descidas do que na “Rodovia Fantasma”. No caminho, avistamos diversos caminhões sendo rebocados por tratores. Nos trechos mais secos, mesmo com o bom fôlego do motor, é impossível avançar mais de 50 m sem reduzir bruscamente a velocidade para desviar das crateras.
O solo é totalmente irregular e Triton Savana se mostrou muito resistente para encarar
Murilo Góes/Autoesporte
O solo é todo irregular e tem intermináveis “costelas”, aquelas ondulações perpendiculares à direção da via formadas pelo tráfego, pela chuva e, claro, pela falta de manutenção. A vibração na cabine é tão intensa que a cabeça sacode sem parar — o motorista fica com a visão turva. É fácil perder a aderência da picape, porém, com movimentos leves, retoma-se a trajetória.
É uma direção exaustiva. Nos últimos 20 km antes de chegarmos a Lábrea, onde há a construção de um pequeno aeródromo, a estrada é asfaltada, e a cena mais comum são pessoas caminhando, andando de bicicleta e fazendo exercícios. Isso escancara o quanto a melhoria da pavimentação pode trazer, além de segurança rodoviária, bem-estar para a população.
Rodovia Transamazônica termina no município de Lábrea, no Amazonas
Murilo Góes/Autoesporte
Fizemos, então, o registro da placa de término da Transamazônica. E logo tivemos que voltar, pois já era meio da tarde e o caminho até Porto Velho para concluir a missão seria longo.
A cabine trepidando sem parar e as porradas que a Savana sofreu ao desviar de um buraco para cair no outro, ao longo dos 215 km de volta pela Transamazônica noite adentro, configuraram uma prova de resistência física e mental extrema. Somando ida e volta entre Humaitá e Lábrea, mais o trecho asfaltado até Porto Velho, foram mais de 600 km e quase 20 horas de estrada. Apesar de toda a tensão, missão concluída.
Nova Mitsubishi Triton Savana cumpriu a missão e chegou em Porto Velho (Rondônia)
Murilo Góes/Autoesporte
A Triton Savana se mostrou um tanque de guerra. Exatos 1.465 km percorridos, 36h34 de estrada e velocidade média de 37 km/h. Sem danos estruturais, sem pneu furado, apenas um para-brisa trincado. É revoltante e vergonhosa a situação da BR-319 e da Transamazônica.
Enquanto debates sobre impactos ambientais e melhorias das rodovias se arrastam por décadas, a vida da população local continua sendo assombrada pelo fantasma da promessa de um país do futuro que nunca chegou.
Mitsubishi Triton Savana – Prós e contras
Pontos positivos: enfrentar buracos, atoleiros e situações desafiadoras ao longo da rodovia.
Pontos negativos: central multimídia não conecta celulares sem fio e a capota marítima fez falta.
Nova Mitsubishi Triton Savana
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