Teste: Kia EV3 mostra que autonomia não é mais problema em carro elétrico

SUV compacto elétrico tem eficiência exemplar e surpreende pelo espaço interno, apesar do porte de Hyundai Creta Aposto que você já se pegou mudando de opinião a respeito do processo global de eletrificação. Por vezes, também fico nesse conflito. Numa hora, penso que tem tudo para dar certo, mas depois alguma notícia controversa me faz rever a opinião e adotar uma análise mais cautelosa. Mas aí surge um produto como o Kia EV3 e cria o pensamento peremptório: “é, não tem jeito, veio para ficar”.
Pense bem: com 4,30 metros de comprimento, o inédito SUV elétrico tem tamanho muito próximo ao de um Hyundai Creta. Contudo, devido ao motor elétrico dianteiro muito mais compacto que qualquer propulsor convencional, permite um entre-eixos de 2,68 m, o mesmo de um Sportage e quase igual a um Toyota Corolla. Sem falar no assoalho plano, que otimiza ainda mais o espaço interno.
Kia EV3 segue ousada identidade visual da nova família de elétricos da marca sul-coreana
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Autonomia não é mais problema
Silêncio a bordo e um porta-malas de 460 litros, maior que o do Corolla Cross, com direito a um “frunk” de 25 litros extras sob o capô, completam o pacote. “Como os carros a combustão podem sobreviver a isso?”, começo a sentenciar. E quando vemos que as baterias de íons de lítio da versão GT Line, a que testamos, tem 81,4 kWh, gerando uma autonomia de 605 km segundo o ciclo WLTP – número que, segundo a Kia, pode chegar a 773 km no cenário mais favorável possível –, o otimismo aumenta ainda mais.
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Mas será o Kia EV3 tudo isso mesmo? Visualmente, o SUV compacto segue à risca a ousada identidade visual da nova família de elétricos da marca sul-coreana, baseada na plataforma e-GMP. Quem já viu um EV5 na rua ou assistiu ao Rio Open de tênis 2025, onde o EV9 estava exposto nas arquibancadas, já está acostumado com o estilo. Os faróis bumerangue são um pouco mais modestos que o dos irmãos maiores, mas as lanternas contornando as colunas C e a tampa do porta-malas quase na integralidade são tão chamativas quanto.
40 polegadas em telas
Internamente, o estilo despojado da família elétrica se replica no EV3. No painel, temos mais de 40 polegadas de telas digitais: são 12” no head-up display, outras 12” no quadro de instrumentos, mais 12” na central multimídia e 5” para os comandos do ar-condicionado automático digital.
São mais de 40 polegadas de telas; ar-condicionado ocupa a parte central da prancha
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Num geral, a experiência a bordo é similar à de um EV5, porém em uma cabine um bocado menor e com soluções um pouco mais simplistas – o que, por sinal, é uma boa notícia, visto que os irmãos maiores forçam um pouco a barra na extravagância.
Um exemplo é o volante com desenho convencional de três raios, apesar do acabamento em dois tons, que combina com os revestimentos mesclando couro sintético claro e escuro nos bancos. A base do painel é sóbria e forma uma barra contínua de uma ponta à outra, “camuflando” os difusores de ar.
Em comparação ao Kia EV5, o EV3 possui cabine menor e mais simples
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Só não gostei do vazio existencial do console central. O espaço ali poderia ter sido mais bem elaborado. Também me causou estranheza a tábua deslizante sob o apoio de braço central. Enorme, possui uma singela régua de botões e parece mais atrapalhar que ajudar em termos de ergonomia.
Vale ressaltar que o EV3 possui dez tipos diferentes de materiais reciclados espalhados por algumas peças do acabamento interno e até do exterior. É o caso das molduras das caixas de roda, feitas de plástico extraído de garrafas pet usadas.
Kia EV3 tem padrão de bancos e acabamento em dois tons
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E o espaço?
Preciso constatar que o Kia EV3 é de fato um SUV compacto bem mais espaçoso que um Creta. Qualquer passageiro nas duas fileiras viaja com ótimo espaço para cabeça e pernas. Mesmo os ombros dos ocupantes traseiros ficam menos tensionados quando a fileira está lotada, graças ao 1,85 metro de largura. É mais não apenas do que o 1,79 m do Creta, como também em relação ao 1,82 m de um Jeep Compass.
Em movimento, o EV3 prioriza o conforto. A direção é pouco desmultiplicada e direta, porém levinha, enquanto a suspensão permite inclinações laterais e longitudinais da carroceria em níveis aceitáveis, no limite entre o confortável e o demasiado macio. Surpreende o comportamento dos freios, muito responsivos já no primeiro estágio de carga sobre o pedal. E olha que o SUV pesa 1.930 kg, gerados pelo enorme banco de baterias no assoalho.
Segundo a Kia, O SUV elétrico pode chegar a 773 km de autonomia
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Mas é claro que esse peso cobra seu preço em algum momento, e isso acontece no desempenho. Não, o EV3, com seus 204 cv, não anda mal. Tem mais torque que um Volkswagen Nivus GTS e, devido ao pico instantâneo de entraga, o 0 a 100 km/h demora meros 7,7 segundos, 0,1 s menos que o do novo Creta 1.6 TGDi.
A questão está na relação peso-potência de 9,46 kg/cv, contra 7 kg/cv de um Creta 1.6 TGDi com seus 193 cv e 1.355 kg.
O resultado prático é uma aceleração inicial vigorosa, seguida de um comportamento muito mais comedido a velocidades de cruzeiro, mesmo rodado em modo Sport – há, ainda, os modos Eco e Comfort. Com isso, o EV3 apresente uma velocidade máxima de 170 km/h, ante 210 km/h do Creta 1.6 turbo. Quando te perguntarem o que significa dizer que um carro tem desempenho “elástico”, eis o exemplo perfeito de comparação.
Falemos agora de autonomia. No ciclo WLTP, temos excelentes 605 km homologados para a versão GT Line, com 81,4 kWh de baterias. Na especificação de 58,3 kWh, são 436 km. Em seu material de divulgação, contudo, a Kia divulga 773 km de alcance máximo nas situações mais favoráveis de uso. É um número de dar inveja a qualquer SUV com motor a diesel, mas convenhamos… Talvez só aconteça em um trajeto de descida constante, com muita frenagem regenerativa, veículo em modo Eco e ar desligado…
Kia EV3 dianteira
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Em nosso teste, rodando cerca de 100 km por uma estrada sinuosa entre as cidades catalãs de Barcelona e Tarragona, iniciamos o trajeto com bateria cheia e terminamos com 493 km de autonomia no computador de bordo. Foi um circuito predominantemente rodoviário e o ar esteve sempre ligado. Ou seja, enquanto os 605 km parecem até fidedignos, os tais 773 km soam mais como uma aspiração.
Em corrente contínua (DC), a uma potência de até 128 kW, a recarga rápida pode levar 31 minutos entre 10% e 80%. O carregamento lento em corrente alternada (AC) tem bons 11 kW de capacidade máxima, mas a Kia promete dobrar essa velocidade para 22 kW a partir de 2026.
Apesar das qualidades, o preço de aquisição de um Kia EV3 ainda é alto para um SUV compacto
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Também me surpreendeu muito positivamente a suavidade de sistemas como o controle de velocidade adaptativo (ACC) e o assistente de permanência em faixa. São eficientes sem ser intrusivos demais. A visão em 360 graus encanta igualmente, devido à excepcional resolução das imagens. Já as duas câmeras de ponto cego no painel de instrumentos são iguaizinhas às do Creta.
Na Europa, o Kia EV3 tem preços entre 35 mil e 50 mil euros, o que daria entre R$ 215 mil e R$ 310 mil na conversão direta. A versão que testamos, GT Line, está entre as mais caras. Sim, é um preço alto para um SUV compacto, e que me fez novamente questionar a capacidade de sucesso dos carros elétricos em curto prazo. No Brasil, o modelo está em estudo, mas dificilmente seria lançado por menos de R$ 250 mil ou até R$ 300 mil.
É… Quando analisamos o produto em si, não falta mais nada. Entretanto, o custo de aquisição ainda é o maior entrave para o sucesso definitivo da eletrificação. Mesmo para um SUV tão bem resolvido quanto o Kia EV3.
Ficha técnica
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