Renault: o papel da marca no caso Honda-Nissan e na parceria com a Geely

Fabricante francesa teve participação decisiva nas negociações entre japonesas e na entrada da marca chinesa em nosso mercado Interessante como a sexta maior empresa em vendas no Brasil e no mundo está sob os holofotes nos últimos meses. De forma direta ou indireta, a Renault é notícia na indústria automotiva, seja por seu papel na fusão fracassada entre Honda e Nissan ou pela nova parceria com a chinesa Geely no Brasil.
Em fevereiro, Honda e Nissan anunciaram que a intenção de casamento entre as partes, o que também envolveria a Mitsubishi, havia acabado. Aparentemente, as partes não concordaram com o pacto pré-nupcial. As três empresas emitiram posicionamentos informando tal decisão. A Honda disponibilizou dois comunicados: um mais simples, como todas as demais, e outro um pouco mais detalhado.
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Com relação aos comunicados mais simples, um detalhe me chamou atenção. Nissan e Mitsubishi adicionaram informações das três empresas, enquanto a Honda citou apenas a Nissan, como que dizendo que as questões foram tratadas e os problemas encontrados apenas com esta empresa – uma vez que a Mitsubishi está vinculada à Nissan e participou da negociação com menos ênfase.
Renault teve papel importante nas negociações entre Nissan e Honda
Divulgação
Vamos entender o comunicado mais completo, que segue em tradução livre abaixo:
“A Nissan Motor Co., Ltd. (“Nissan”) e a Honda Motor Co., Ltd. (“Honda”) concordaram hoje (dia 13 de fevereiro) em rescindir o MOU (Memorandum of Understanding = Memorando de Entendimentos) assinado em 23 de dezembro do ano passado para consideração de uma integração de negócios entre as duas empresas.
Desde a assinatura do MOU, as equipes de gestão das empresas, incluindo os CEOs, discutiram e consideraram o ambiente de mercado circundante, os objetivos da integração de negócios e as estratégias e estruturas de gestão pós-integração. Além disso, levando em consideração a importância de uma integração de negócios, ambas as empresas consultaram cuidadosamente as várias partes interessadas.
Durante as discussões entre as duas empresas, várias opções foram consideradas acerca da estrutura de integração de negócios. A Honda propôs mudar a estrutura de um estabelecimento preliminar de uma holding conjunta, onde nomearia a maioria dos diretores e o CEO da empresa com base em uma transferência conjunta de ações, conforme inicialmente descrito no MOU, para uma estrutura onde a Honda seria a empresa controladora e a Nissan a subsidiária por meio da troca de ações.
Como resultado dessas discussões, as companhias concluíram que, para priorizar a velocidade da tomada de decisão e a execução de medidas de gestão em um ambiente de mercado cada vez mais volátil, em direção a um cenário de eletrificação, seria mais apropriado encerrar as discussões e rescindir este MOU.
No futuro, a Nissan e a Honda colaborarão dentro da estrutura de uma parceria estratégica voltada para a era da inteligência e dos veículos eletrificados, esforçando-se para criar novo valor e maximizar o valor corporativo de ambas as empresas.”
E o que significa cada elemento deste comunicado?
“Desde a assinatura do MOU, as equipes de gestão das empresas (…) consultaram cuidadosamente as várias partes interessadas”: indica a existência de negociações que envolveram todas as partes interessadas. Entendo que, como detentora de 36% das ações da Nissan, a Renault tenha atuado como uma dessas partes interessadas, o que contribuiu para a decisão de não seguir com o acordo. As iniciativas que a Nissan deveria cumprir provavelmente também foram levadas em consideração na decisão;
“Durante as discussões, várias opções foram levadas em conta no caso da integração de negócios”: a Honda deixa claro sua intenção em modificar a roupagem jurídica da empresa pensada. De uma holding conjunta para uma simples subsidiária, numa nítida perda de espaço e poder da Nissan;
“para priorizar a velocidade da tomada de decisão”: sem que nenhuma parte conseguisse sucesso na evolução da negociação, cada empresa segue como estava até 23 de dezembro. O CEO global da Nissan, Makoto Uchida, foi muito criticado neste processo e a imagem da Nissan sai arranhada;
“execução de medidas de gestão em um ambiente de mercado cada vez mais volátil, em direção a um cenário de eletrificação”: ninguém tem uma bola de cristal sobre qual modelo de eletrificação será o mais adequado. É notório que o elétrico puro perdeu velocidade em diversos mercados, mas mesmo nos híbridos há dúvidas em relação aos principais formatos. No caso de Honda e Nissan, envolvidas têm seus produtos, suas plataformas, modelos em desenvolvimento (incluindo desenvolvimento com os parceiros atuais) e tecnologias que por vezes têm aspectos divergentes. Em paralelo, as empresas tradicionais estão se recuperando do atraso em relação ao processo da eletrificação (dominado pela indústria chinesa) que vem assustando o mercado;
“No futuro, a Nissan e a Honda colaborarão dentro da estrutura de uma parceria estratégica voltada para a era da inteligência e dos veículos eletrificados, esforçando-se para criar novo valor e maximizar o valor corporativo de ambas”: permanecerão respeitando o antigo MOU assinado em 15 de março de 2024 com foco no desenvolvimento de tecnologias para veículos definidos por software (SDVs) de próxima geração.
Nissan vive inferno astral: Frontier teve produção suspensa e sucessora cancelada na Argentina
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A Nissan de fato passa por um inferno astral. A Renault quer a cabeça do presidente global da japonesa e as ações da companhia na bolsa de Tóquio estão bem depreciadas. No último relatório global foi anunciado o fechamento de três fábricas no mundo, menores investimentos e cortes de pessoal (importante comentar que não vislumbro qualquer impacto no Brasil).
Nissan Frontier tem produção suspensa e sucessora cancelada na Argentina
Mesmo com esta situação, a Nissan ainda atrai investidores. Um dos que se animam é a Foxconn, que fabrica produtos eletrônicos para grandes empresas do setor. Vamos aguardar mais este capítulo de uma história que parece interminável.
Renault e Geely no Brasil
Renault e Geely assinam acordo no Brasil
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E para cá, Brasil, em meados de fevereiro, Renault e Geely anunciaram uma cooperação estratégica na produção e vendas de veículos com emissões baixas ou mesmo zero emissão. A Geely investiria na Renault do Brasil, tornando-se uma acionista minoritária e, em contrapartida, ganharia acesso às instalações da francesa para produção, rede de concessionários e serviços.
Renault e Geely já são sócias em uma joint venture port meio da Horse, especializada em powertrain, que já conta com presença no mercado local inclusive fomentando negócios.
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Luca de Meo, CEO do Grupo Renault , disse: “As duas empresas nos ajudarão a consolidar nossa presença industrial no estado do Paraná e a fortalecer ainda mais a posição da marca Renault neste mercado-chave”.
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Já Eric Li, presidente do Geely Holding Group, disse: “A cooperação da Geely com a Renault é parte do compromisso em trabalhar com parceiros globais na transformação e melhoria da indústria em uma direção sustentável”.
E por fim, Daniel Li, CEO da Geely Holding Group, finalizou: “Nesta era transformadora da indústria automobilística global, faz sentido percorrer o caminho à frente com amigos e parceiros. Para atingir crescimento quantitativo e qualitativo, não podemos nos contentar em ficar confortáveis em um lugar, devemos sair para o mundo, aderir ao desenvolvimento de longo prazo e nos comprometer a ser abertos e colaborativos”.
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