Chevrolet Celta brasileiro vai correr contra Porsche, BMW e Mustang nos EUA


Imagine esta cena: é madrugada em Daytona (Estados Unidos), um dos circuitos mais tradicionais do mundo. Chegamos na metade da corrida, menos de 10 horas para a bandeirada final. Você ouve o ronco de um motor se aproximando, cortando os bankings, como são chamadas as curvas do traçado com 31 graus de inclinação. Dessa vez não é o V8 big block do Ford GT40 de Ken Miles, mas sim um quatro-cilindros aspirado, tração dianteira e com carroceria hatch: é o Chevrolet Celta.
Em abril de 2026, pela primeira vez na história, um carro 100% brasileiro competirá fora do Brasil. A equipe paulista Callflex Racing será o primeiro time brasileiro a alinhar um Celta, de 2012, preparado no Brasil nas 14 Horas de Daytona, prova válida pela ChampCar Endurance Series, maior campeonato amador de corridas de longa duração dos EUA. E a missão não será fácil: o icônico Celtinha vai competir com vários carrões esportivos.
Equipe Callflex Racing vai competir com Celta fora do Brasil
Arquivo pessoal
No site oficial da competição tem exatamente 100 carros inscritos para competição. Só de Ford Mustang, de vários anos diferentes, são 13 unidades, enquanto de Chevrolet Camaro são cinco. De BMW são 32 veículos, de Mazda são 16 e ainda tem Porsche no grid.
Se isso já não fosse histórico o suficiente, a jornada da equipe simboliza algo raro no automobilismo moderno: a chegada de um projeto construído longe das categorias de base tradicionais, sem grandes atalhos financeiros, sustentado por carros de produção, método e teimosia.
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“Se fosse para seguir o caminho óbvio, a gente teria parado muito antes”, resume Alexandre Azzoni, empresário do setor de tecnologia e um dos pilotos e fundador da equipe. “O que sempre nos moveu foi descobrir até onde dava para ir com aquilo que parecia não ser suficiente”.
O começo: track days, Time Attack e o DNA dos carros de produção
A Callflex Racing nasce oficialmente em 2018, mas sua gênese está espalhada pelos boxes de track days paulistas, em conversas de paddock, erros repetidos e noites gastas tentando entender por que um carro se comportava de determinada maneira. Não havia um plano mestre, tampouco uma ambição clara de chegar longe. Havia método em formação. “Nosso kart foi o track day”, diz Azzoni. “A gente aprendeu errando, aprendendo a ler carro, pista, gente. E, principalmente, aprendendo a respeitar limite”.
Alex Benedetti trazia uma vivência ainda mais ampla do automobilismo amador: arrancada, slalom, track days e corridas de turismo. Sempre orbitando o mesmo princípio de que o carro não precisava ser especial para contar uma boa história. “Eu sempre fui atraído pelo diferente”, explica. “Nunca me interessou repetir receita pronta. O processo de aprender fazendo sempre foi mais importante.”
Equipe Callflex Racing nasceu em 2018
Humberto da Silva
Já Leandro Justo carregava uma ligação quase fundacional com os carros de produção. Criador de clubes de marca, frequentador de eventos desde jovem e especialista em organização, foi dele a visão de que, para sobreviver, a paixão precisaria virar estrutura. “A gente entendeu cedo que improviso sem método não sustenta equipe”, diz.
Foi nesse ambiente que se consolidou a decisão mais importante da Callflex: trabalhar exclusivamente com carros de produção. Não como limitação orçamentária, mas como manifesto técnico e cultural. “Nossos carros sempre foram carros de rua que viraram carros de corrida”, resume Justo. “Eles têm documento, história, dono e até pagamos IPVA. Isso muda a forma como você constrói um projeto”.
Das Mil Milhas ao up!: endurance, improviso e o nascimento do “fazer diferente”
A entrada da Callflex Racing nas Mil Milhas marcou o momento em que a equipe deixou definitivamente o terreno do improviso confortável para encarar a realidade do endurance. Até ali, a experiência vinha de provas curtas, onde erros custavam posições. Nas Mil Milhas, erros custavam a corrida inteira.
A estreia aconteceu com um Voyage montado praticamente na garagem, reflexo direto do que a equipe era naquele momento: organizada, dedicada, mas ainda pequena. A estrutura no box se resumia a uma caixa de ferramentas, um par de pneus e um jogo de pastilhas de freio reserva. Não havia caminhão, não havia estoque, não havia plano B. Se algo sério quebrasse, a corrida acabaria ali. “Quando a gente chegou, era exatamente isso”, lembra Alex Benedetti. “Você olha em volta, vê a estrutura das outras equipes e entende que está entrando em outro jogo”.
Volkswagen Up! foi o primeiro carro de produção com motor três-cilindros turbo a disputar provas de endurance no Brasil
Humberto da Silva
Foi dessa leitura que nasceu o projeto seguinte, e talvez o mais emblemático até então: o Volkswagen up!. Em vez de buscar um carro maior ou mais potente, a Callflex escolheu um modelo pequeno, urbano e cercado de desconfiança, transformando-o no primeiro carro de produção com motor três-cilindros turbo a disputar provas de endurance no Brasil.
“O up! surgiu quase como provocação”, explica Leandro Justo. “Todo mundo dizia que carro pequeno não aguentava”. Nas Mil Milhas de 2024, o carro completou a prova como brigou por posições, liderou sua categoria em momentos distintos e terminou em segundo, chamando atenção pela constância de ritmo e pela capacidade de se manter na disputa ao longo das horas.
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O Celta no centro de tudo: risco, investimento e identidade
A experiência com o up! deixou claro que o próximo passo precisaria ser maior. Não apenas esportivamente, mas simbolicamente. Quando a Callflex decidiu voltar a Daytona, após a primeira participação internacional em 2023 com um carro alugado, a condição era clara: seria com carro próprio e identidade própria.
Escolher o Celta para disputar uma prova de endurance nos Estados Unidos nunca foi a alternativa mais simples nem a mais barata. Levar um carro brasileiro, que nunca correu oficialmente fora do país, para enfrentar 14 horas em Daytona exigiu um nível de investimento financeiro, técnico e logístico extremo. “A decisão de levar o Celta foi, sem exagero, a mais difícil que a gente já tomou”, admite Justo. “Seria muito mais fácil escolher um carro que já corre lá fora. Mas isso não teria nada a ver com a nossa história”.
Chevrolet Celta vai para os Estados Unidos competir nas 14 Horas de Daytona
Edmar Salguero Junior
Foram dois anos de desenvolvimento, negociação direta com a organização da ChampCar e uma autorização especial para competir em classe de exceção, algo raro até para os padrões da categoria. Além disso, houve o custo logístico de enviar o carro ao exterior, manter operação própria nos Estados Unidos e adaptar o projeto às exigências de uma prova disputada em um dos circuitos mais severos do mundo.
“Não é só colocar o carro no contêiner”, explica Azzoni. “É pensar em peça, em suporte, em tudo que pode dar errado a mais de sete mil quilômetros de casa”. Ainda assim, para a Callflex, fazia sentido que esse salto fosse dado justamente com o Celta.
Do Brasil a Daytona: o caminho do Celta
O Chevrolet Celta da Callflex Racing foi preparado integralmente no Brasil após dois anos de desenvolvimento técnico. Para chegar aos Estados Unidos, a equipe optou pelo transporte marítimo em contêiner, solução de melhor custo-benefício para um projeto independente.
Segundo a própria Callflex, o custo estimado apenas para a montagem do carro ficou entre R$ 180 mil e R$ 200 mil, valor que inclui desenvolvimento, preparação mecânica e testes ao longo de quase dois anos. A isso, soma-se o custo logístico de envio do carro aos Estados Unidos, de cerca de R$ 60 mil. “Teve um momento em que eu falei para o Alex: vou parar de atualizar o Excel”, conta Leandro Justo.
Montagem do Chevrolet Celta custou cerca de R$ 200 mil
Edmar Salguero Junior
A opção pelo transporte marítimo em contêiner foi decisiva para manter o projeto viável financeiramente, ainda que impusesse desafios adicionais. A travessia levou 30 dias, embarcando no terminal Rio Grande (RS), no dia 5 de novembro, e desembarcando no Porto de Everglades, em Fort Lauderdale, na Flórida, EUA. Já em solo americano, o carro seguiu para a oficina da MapGreen, responsável pelo suporte final de adaptação ao regulamento e pela operação durante as 14 Horas de Daytona.
O que fica: legado, cultura e o valor de fazer diferente
A corrida acontece em 11 de abril de 2026, com transmissão ao vivo pelo YouTube da ChampCar e onboard exclusiva da Callflex. Mas, para a equipe, o impacto do projeto vai muito além da bandeira quadriculada.
“A gente quer mostrar que existe outro caminho”, diz Justo. “Que dá para sair do track day, errar, aprender, se organizar e chegar longe”. Para Azzoni, o legado está menos no feito e mais no exemplo. “Se alguém olhar essa história e pensar ‘talvez eu também consiga’, já valeu”.
Equipe Callflex Racing
Arquivo pessoal
Quando o Celta entrar no banking de Daytona, ele não será apenas um carro improvável em um lugar improvável. Será a prova de que inovação não nasce só de orçamento, mas de método, curiosidade e coragem para insistir, mesmo quando tudo indica que não deveria dar certo. “No fim das contas”, resume Benedetti, “a gente nunca quis ser exceção. Só quis fazer do nosso jeito”.
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