Gasolina com 35% de etanol pode ser mais fácil de adulterar, diz especialista


O Ministério de Minas e Energia autorizou o início do teste da gasolina E35, que terá 35% de etanol anidro em sua composição, contra os atuais 32% do combustível vendido nos postos de todo o Brasil. Embora a avaliação esteja em etapa inicial, especialistas demonstram preocupação quanto à qualidade da nova mistura. Teoricamente, a gasolina E35 pode ser até mais fácil de adulterar se outros aspectos da composição, que vão além da adição do etanol, não forem considerados.
Em entrevista para a Autoesporte, Rogério Gonçalves, diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), explica que os tópicos mais delicados sobre a gasolina E35 são octanagem mínima e a massa específica. Fraudadores “profissionais” poderiam se aproveitar das condições atuais e produzir combustível adulterado capaz de passar até no teste da proveta.
ANP faz a fiscalização da qualidade dos combustíveis nos postos brasileiros
Divulgação/ANP
“Se aumentarmos o teor de etanol e a Agência Nacional do Petróleo (ANP) não alterar a especificação [de octanagem e massa específica], corremos o risco de importação de gasolinas baratas e de baixa qualidade que, com o teor maior de etanol, se enquadram na especificação”, revela o especialista. “A ANP fez essa alteração quando passamos da gasolina E27 para a E30 — mas não para a E32, pois essa autorização, por enquanto, é temporária”.
Rogério Gonçalves reforça que qualquer aumento de etanol na mistura deveria vir, impreterivelmente, acompanhado de um aumento na especificação de octanagem mínima e densidade:
“Não mexer na especificação pode também facilitar a fraude com adulteração com solventes ou naftas de baixa qualidade. Existem fraudadores “profissionais” que adicionam esses produtos e também etanol para corrigir o teor alcoólico. Assim, a gasolina adulterada passa no teste da proveta nos postos”.
Octanagem da gasolina comum subiu de 93 RON para 94 em setembro do ano passado
Murilo Goes/Autoesporte
Todavia, se o combustível for levado a um laboratório para uma análise mais aprofundada, a adulteração será constatata. As atuais condições de octanagem e massa específica foram determinadas pela Resolução nº 988/2025 da ANP, publicada em setembro do ano passado. Foi quando a octanagem da gasolina comum subiu do RON 93 para 94. Já a massa mínima do combustível foi posicionada em 688,9 kg/m³. Entenda as duas variáveis abaixo:
O que é octanagem?
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Renato Durães/Autoesporte
A octanagem — o chamado RON (Research Octane Number) — é o índice que mede a resistência do combustível à detonação: quanto maior o resultado, mais resistente é a gasolina durante sua queima no motor, o que ajuda na eficiência do veículo.
Quanto maior a octanagem, melhor será a capacidade do combustível ser comprimido na câmara de combustão. Dessa forma, de acordo com o especialista da AEA, o comportamento do motor do veículo é mais eficiente e econômico.
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Tal atualização pode até compensar parte do consumo de combustível, que vai subir por conta da nova mistura de 35% de etanol. Isso porque o derivado da cana-de-açúcar tem poder calorífico menor que o da gasolina, e a tendência é que a autonomia geral de todos os carros do Brasil tenha leve redução em comparação com o combustível atual.
“Os motores modernos têm recursos eletrônicos que operam com uma taxa de compressão intermediária para funcionar com etanol e gasolina ao mesmo tempo. Ao detectar um combustível de maior octanagem, o sistema [de gerenciamento eletrônico] poderá se ajustar automaticamente e fazer com que o motor funcione a uma taxa de compressão mais favorável”, explica o especialista.
O que é massa específica?
A massa específica da gasolina é a relação entre a massa e o volume do combustível (kg/m³ ou g/ml), servindo como um indicador essencial de sua pureza, composição química, densidade e rendimento energético.
Em outras palavras, quanto maior a massa específica dentro da faixa permitida, maior é a energia disponível por litro para o motor do veículo. Este indicador é regulado pela ANP. Valores de massa específica fora do padrão legal ajudam a identificar adulterações, como a mistura de solventes impróprios ou água.
Quando a gasolina com 35% de etanol chegará aos postos?
Testes da gasolina E35 foram autorizados como parte da Lei do Combustível do Futuro
Murilo Goes/Autoesporte
A gasolina com 35% de etanol é pauta central da Lei do Combustível do Futuro (14.993/24). A legislação permite ampliar o limite de etanol, desde que comprovada a viabilidade técnica. Por isso, o Ministério de Minas e Energia autorizou o início dos testes da nova mistura no Brasil.
O cronograma de testes foi aprovado pelo Comitê Técnico Permanente do Combustível do Futuro (CTP-CF), mas só passará a valer a partir da publicação da Portaria. Porém, cabe ao Conselho Nacional de Pesquisa Energética (CNPE) a aprovação da nova mistura de etanol que cria a gasolina E35. Não há data para a chegada da gasolina E35 aos postos.
Fabricantes e importadoras de carros são contra o aumento
A adoção do combustível com 32% de etanol a partir do dia 1° de agosto não foi bem aceita por fabricantes e importadoras de automóveis no Brasil. Por meio da Associação Nacional das Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e da Associação Nacional das Importadoras de Veículos (Abeifa), as marcas questionam o aumento compulsório que cria a chamada “gasolina E32”, e dizem que faltam “estudos técnicos específicos e conclusivos” para a decisão.
Embora parte considerável da frota brasileira seja formada por carros flex, a preocupação diz respeito aos veículos movidos somente a gasolina, que serão os mais afetados pela opção da nova mistura. Segundo as associações, não existe uma base técnica que justifique a elevação da quantidade de etanol no combustível fóssil.
De acordo com as marcas de carro, sejam fabricantes ou importadoras, o governo teria avaliado o desempenho e a dirigibilidade dos veículos considerando a margem de tolerância da especificação do combustível — porém, não incluiu variáveis de durabilidade, emissões, autonomia ou funcionamento de frota. As empresas defendem que não há uma base técnica que justifique a elevação do teor de etanol na gasolina.
Em julho, o Ministério Público Federal (MPF) protocolou um pedido liminar para suspender a decisão do governo que aumenta o teor de etanol na gasolina para 32%. O órgão entende que não há uma análise de impacto que demonstre cientificamente a viabilidade da medida para a frota nacional
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