Guerra comercial: carros importados dos EUA ficarão mais caros no Brasil?

Governo Lula promete agir caso Donald Trump imponha novas tarifas aos produtos nacionais O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou às manchetes fomentando nova guerra comercial. Dessa vez, as rígidas políticas tarifárias do republicano abarcam uma série de “países que querem prejudicar” sua nação. Nesse balaio o mandatário adicionou o Brasil, que poderia sofrer com uma sobretaxação em produtos como aço e alumínio.
Nosso governo, por meio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prometeu retaliação. “Se Trump taxar os produtos brasileiros haverá reciprocidade em taxar os produtos dos Estados Unidos. Simples, não tem dificuldade”, afirmou.
Nesta segunda-feira (9), o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou, contudo, que o governo irá esperar “decisões concretas” da administração Trump antes de tomar qualquer tipo de decisão sobre uma possível retaliação.
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O Planalto, contudo, admite que há dificuldades, especialmente em âmbito jurídico, para que o Brasil devolva na mesma moeda. Isso porque disputas do tipo tem de ser resolvidas por meio da Organização Mundial do Comércio (OMC).
Donald Trump ameaça Brasil com sobretaxas
Reprodução/Wikimedia Commons
Mesmo assim, fica aqui a pergunta: o que pode acontecer com os veículos feitos nos Estados Unidos Unidos e importados para o Brasil? Há alguns cenários que podem decorrer por conta da guerra tarifária que Trump pretende iniciar.
No caso dos automóveis, os carros que vêm dos Estados Unidos já têm incidência de 35% de imposto de importação. “Essa tarifa já é suficiente para garantir a competitividade da indústria nacional”, salienta Cassio Pagliarini, da Bright Consulting. “Além disso, é importante ressaltar que os produtos que vêm para cá são premium, com preços já elevados”, completa.
De fato, são carros de categorias mais caras. A Ford, por exemplo, traz dos Estados Unidos Mustang e F-150. A Jeep importa Gladiator e Grand Cherokee e Wrangler. De lá também vêm as Ram 1500, 2500, 3500 e o BMW X6. “Em suma, são volumes pequenos que vêm dos EUA. Portanto, sob o ponto de vista de automóveis, uma sobretaxação não é interessante”, destaca Pagliarini.
“Sob o ponto de vista da importação, seria contraproducente o Brasil sobretaxar [produtos dos EUA]. O mais interessante é negociar, com cautela, e tentar manter o atual status quo, que, para nós, é favorável”, afirma o consultor. “Neste momento é melhor falar pouco para não termos impactos nos nossos produtos de exportação aos Estados Unidos: café, suco de laranja, carne, celulose, petróleo e aviões”, acrescenta.
Todavia, especialistas do setor dizem que a tendência, caso o Brasil queira impor sobretaxas aos produtos dos EUA, é de que esses veículos fiquem ainda mais caros. Por serem produtos de nicho, a diferença para o consumidor não seria tão considerável na ponta do lápis. No entanto, um ou outro modelo poderia deixar de ser importado.
Jeep Wrangler Rubicon vem importado dos EUA
Julia Maria Toledo/Autoesporte
Sobretaxa dos EUA: desafios
Para Márcio de Lima Leite, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores, a imposição de tarifas a China, México e Canadá gera “um momento de bastante imprevisibilidade do mercado”. Por isso, a entidade analisa os reflexos que essas medidas podem representar para o setor automotivo.
“A sobretaxa pode gerar ociosidade de produção nesses países e poderemos ter um redirecionamento das exportações da China, México e Canadá para os nossos mercados, da América Latina, foco de crescimento para o Brasil. Por isso, tais medidas geram inseguranças”, salientou o presidente da Anfavea.
Vale frisar que o Brasil também poderia passar a receber mais produtos do segmento de autopeças, de maior valor agregado, da China. Isso porque o país asiático terá de utilizar determinados mercados para, de algum modo, “desovar” componentes. Nosso país faria sentido, já que as montadoras de lá instaladas por aqui ainda não têm cadeias consistentes de fornecedores.
Leite comentou ainda que sabe da suspensão temporária da aplicação das principais alíquotas, mas ressaltou que o cenário gera desconforto para as fabricantes instaladas no Brasil – principalmente as que têm unidades em outras regiões.
Além de uma reconfiguração de produção, o Brasil pode sofrer com cenário de desvalorização cambial, aumento da inflação e elevação de juros. Não à toa, a Anfavea já trabalha com o fato de que a Selic passará dos 13,25% ainda este ano.
“Uma taxa de juros elevada a mais de 14% é um risco e uma realidade muito forte que se impõe sobre o setor automotivo. Em 2022 tivemos 70% de vendas financiadas, no ano seguinte houve recuo para 30% e tivemos aumento para 45% em 2024. Portanto, temos um grande desafio de fazer o mercado crescer sabendo que o custo de financiamento será provavelmente impactado”, destacou.
Outro lado
A sobretaxa que Trump pretende impor aos seus parceiros, de acordo com economistas, pode causar a médio prazo cenário de inflação no país. Também haverá um provável encarecimento dos veículos por lá comercializados.
O Brasil não envia carros para os Estados Unidos e a importação de veículos daquele país é praticamente irrisória (representa, no máximo, 1% das 466,5 mil unidades). O foco está em máquinas rodoviárias e máquinas agrícolas. No entanto, o setor de autopeças poderia se beneficiar caso não soframos quaisquer represálias.
Se Trump optar por impor barreiras ao México e ao Canadá, com tarifas de 25% sobre seus produtos, o segmento pode passar a ser procurado por importadores dos Estados Unidos. Desse modo, o ecossistema automotivo nacional teria chances de capitalizar em cima de uma provável guerra comercial, já que teria custos mais competitivos (especialmente ante ao rival latino-americano).
Por isso, para a Anfavea, é “hora de ter calma e serenidade”. “O Brasil é país amigável e geograficamente próximo, com boas relações com União Europeia, China e também com os Estados Unidos. Pretendemos colaborar com o governo para termos avanços diplomáticos [com esses principais parceiros]”, disse Lima Leite.
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